segunda-feira, outubro 26, 2020

Tudo de bom vai acontecer (Sefi Atta)


"Ela era minha amiga mais antiga, minha melhor amiga. Havíamos nos afastado em certa época, e às vezes a amizade parecia inconstante, como ocorre com quase todas as irmãs, e ela foi mais perto que eu cheguei de ter uma irmã nesse lugar onde as famílias não cansavam de se expandir", página 232. De autoria de Sefi Atta, 'Tudo de bom vai acontecer' é uma obra que segue a linha de temáticas africanas selecionadas pela @Tag Livros Experiências Literárias. O livro conta a história de Enitan, uma garota nigeriana de classe média que mora com os pais e sua amizade com Sheri, que tem a mesma idade. A narrativa é dividida em três períodos (1971, 1985 e 1995) e situa o leitor no tempo. 

A princípio o enredo se passa na cidade de Lagos, marcado pelas memórias de infância de Enitan e o seu primeiro contato com a amiga Sheri Bakare. O pai de Enitan é advogado e a mãe, do lar, que após perder o filho aos três anos, tornou-se oprimida pelo marido, recorre à religião. "Eu já estava começando a ficar entediada de tanto esperar quando duas semanas antes do fim das férias tudo mudou. Era o terceiro domingo de setembro de 1971", página 15. Não se trata de uma amizade aprovada pela mãe de Enitan, mesmo assim a garota faz de tudo para ver a amiga, nem que seja escondido na casa dos Bakare, aos domingos, quando sua mãe está na igreja. "A semana toda fiquei ansiosa para ir a casa de Sheri. As vezes passava pela aleia de hibiscos esperando que ela aparecesse", página 29. 

Sheri é muçulmana, filha de Alhaji Bakare que tem duas esposas. "Nossa casa só tinha um andar e era coberta de alamandas amarelas e buganviles. A dos Bakare era uma casa enorme de um andar, com venezianas de vidro azul claro, tão quadradona que aos meus olhos parecia um castelo", página 30. A amizade entre as duas garotas irá permear ao longo da narrativa. "Sheri havia me guiado até o limite entre o consentimento dos pais e a desaprovação deles", página 49.


"Chegamos a nossa casa e eu andei até o quintal dos fundos, junto à cerca onde cresciam os hibiscos", página 78. O contexto histórico que fundamenta o enredo é atribuído à Guerra Civil de Biafra, que mesmo tendo seu fim em 1970 tem seus reflexos e sempre é citada na narrativa. Enitan escuta atenta as conversas sobre a guerra entre os familiares, embora não estivesse interessada, nesse momento, em reformas políticas do país. Sem perder os laços com a amiga Sheri, Enitan frequenta o colégio Royal College, mas sempre se corresponde com Sheri por cartas. Com personalidade mais reservada que a amiga, Enitan , ela a acha avançada demais, diferente e atrevida. Um dos momentos mais marcantes da narrativa, sem dúvida, é quando Enitan presencia o estupro da amiga.  

Na segunda fase do livro, a jovem Enitan mora em Londres onde cursa direito na universidade. Seus pais se separam e ao terminar a faculdade retorna à Nigéria cheia de esperança. Outro fato que marca esse período é seu reencontro com a velha amiga Sheri. "Sheri ganhou peso ao longo dos anos. (...) Mas perdera quase toda a alegria da infância. Muitas vezes eu me lembrava da época em que ela ria até os hibiscos caírem do seu penteado afro, o que ainda me fazia chorar de rir", página 232.


Na terceira e última parte, Enitan, uma mulher mais madura, trabalha no escritório do pai. No reencontro com Sheri, ela descobre que a amiga agora tem uma casa e uma vida com luxos sustentada por um velho brigadeiro. Enitan incentiva a amiga a abrir um negócio próprio para alcançar sua liberdade financeira. Uma reviravolta marca a narrativa quando Enitan descobre o relacionamento extraconjugal do pai, a quem sempre admirou, e que ela tem um irmão. Ela sai da casa do pai e vai morar com a amiga Sheri. Enitan nessa fase se mostra mais interessada em se envolver com as causas políticas de seu país e conhece a jornalista Grace Ameh que a convida para lutar contra o atual regime militar. "Dizem que a democracia está à venda. Além do mais seus líderes são coagidos. Não podem nos ajudar se isso prejudicar seus eleitores. Teremos sempre que procurar nossas próprias soluções. Eu tenho fé na África um continente que pode produzir um Mandela. Tenho fé", página 353.

Quando Enitan conhece o marido Niyi e engravida, percebe que seu casamento não é o que ela esperava e vai de encontro a tudo o que ela protestou a vida toda, e resolve separar-se dele. Por meio da jornalista Grace, Enitan tem notícias do pai. "Dois meses depois tive notícias de meu pai. Ele esteve preso durante dez meses. Nosso país passava por um tumulto internacional por causa do enforcamento de nove ativistas ambientais do Delta Níger, incluindo o escritor Ken Saro-Wiwa. Nosso governo manteve-se irredutível", página 364. Enitan se separa de Niyi e volta a morar na casa que era de sua mãe. Quando o pai é solto e ela está a caminho de encontrá-lo, sente-se realmente liberta, feliz e com a expectativa de que 'Tudo de bom vai acontecer' a partir daquele momento. "Nada poderia tirar minha alegria. O sol me enviava sua benção. Meu suor me batizava", página 367.

O livro apresenta por meio da vivência da personagem de Enitan e de sua amiga Sheri, uma visão abrangente de como é crescer mulher na Nigéria. Narrada em primeira pessoa pela protagonista Enitan, que apesar  de pertencer a uma família de classe média e ter privilégios com relação à amiga Sheri, sua trajetória de 25 anos, marcada pelo machismo e formas de violência. Não deixa de ser uma história de superação, por mostrar que apesar do preconceito vivido por essas mulheres, elas mantém ideais de independência, mudança e conseguem realizar sonhos, frequentar uma faculdade e ir em busca de sua própria liberdade, como aconteceu com Enitan e Sheri.  

* Uma referência que a narrativa atribui em algumas passagens são citações voltadas às flores 'hibiscos' e 'alamandas', sempre presentes nas memórias de Enitan, seja na frente das casas ou para enfeitar os cabelos de sua amiga Sheri. Por isso utilizei as duas flores, que gosto muito e que tenho em casa para compor as fotos produzidas para essa postagem.

Texto e foto: Analítica

terça-feira, outubro 20, 2020

A culpa é das estrelas (John Green)

 


"Alguns infinitos são maiores que outros. Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Queria mais números do que provavelmente vou ter, e, por Deus queria mais números para o Augustus Waters do que os que ele teve. Mas Gus, meu amor, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito. Eu não trocaria por nada esse mundo. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados e sou muito grata por isso", página 182. 

"O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis". 'A culpa é das estrelas' de John Green, é um romance fictício que destaca a história de Hazel Grace (16) e Augustus Waters (17), o garoto por quem ela conhece no Grupo de Apoio a Crianças com Câncer. Dependente de um cilindro de oxigênio, a qual o chama carinhosamente de Felipe, Hazel tem tireoide com metástase nos pulmões e Gus osteossarcoma. Diagnosticados com câncer terminal, os dois jovens vão aproveitar o tempo que têm para viver intensamente uma história de amor. "Sem dor não poderíamos reconhecer o prazer".

Um dos pontos que o enredo destaca e que me atraiu muito na narrativa é o foco dado à leitura. Da discussão literária dos protagonistas sobre um livro 'Uma aflição imperial', nasce a ideia dos dois visitarem o autor dessa obra, Peter Van Houten, em Amsterdã, para saberem acerca de uma possível continuação da obra e que fim tiveram os personagens. 

Na viagem dos dois a Amsterdã, acompanhados da mãe de Hazel, o casal tem uma grande decepção no encontro com o tal escritor. Mas a viagem agrega outros momentos que são inesquecíveis para a relação de Hazel e Gus: o jantar regado a champanhe no restaurante Oranjee, a visita a casa/museu de Anne Frank onde acontece o primeiro beijo dos dois assistido e aplaudido por outros visitantes e a primeira transa deles no retorno ao hotel. "Estou apaixonado por você e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que  o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó", página 109.

De volta da viagem, o romance de Hazel e Gus terá seus últimos capítulos escritos e mesmo com pouco tempo, os dois vão aproveitar cada instante desse amor para torná-lo inesquecível. "As pessoas vão dizer que é triste o fato de ela deixar uma cicatriz menor, que menos pessoas se lembrem dela, que ela tenha sido muito amada mas não por muita gente. Mas isso não é triste, Van Houten. É triunfante. É heróico", páginas 218.

Já conhecia a história de Hazel e Gus por meio do filme, mas somente agora tive contato com a obra literária - muito embora sempre costumo fazer o contrário - e adquirir o livro. A obra se configura em uma narrativa recheada de detalhes em que John Green utiliza uma escrita bem simples para falar de um tema que se tornou comum, mas tratado de maneira alegre e tão emocionante, baseada na trajetória de vida de dois jovens e do pouco tempo que eles têm juntos para viver um grande amor. "Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, mas é possível escolher quem vai feri-lo. Eu aceito as minhas escolhas. Espero que a Hazel aceite as dela", página 219. 

  
Texto e foto: Analítica

terça-feira, setembro 29, 2020

A síndrome de Aquiles - Como lidar com as crises de imagem (Mário Rosa)

 


"Várias organizações e líderes costumam manter uma fé cega em si mesmos, menosprezando muitas vezes essa percepção externa da imagem. Mais uma vez vale lembrar aquele velho ditado da comunicação: a comunicação não é o que você diz, mas o que os outros entendem. Ou, de outra forma: a sua imagem não é a que você vê, mas a que os outros vêem. Ou ainda: os seus valores não são só os que você cultiva, mas os que os outros associam a você", página 90.

Fugindo um pouco das leituras convencionais mensais, resolvi optar por esta obra para a segunda leitura do mês de setembro. Na verdade uma releitura. O livro faz parte do meu acervo desde a época da faculdade e estava empoeirado na minha estante faz um bom tempo. 

Para entender um pouco sobre a obra é preciso recorrer à história, mais precisamente a narrativa da mitologia grega. Como o autor se refere nos primeiros capítulos, para a mitologia grega, Aquiles era 'sinônimo de invencibilidade'. Ainda criança, ele foi mergulhado pela mãe, a semideusa Tétis no Rio Estige e esse mergulho o tornaria um ser invulnerável. Mas como a mãe tinha que segurar a criança por alguma parte do corpo, segurou-o pelo calcanhar, mergulhando-o de cabeça para baixo, tornando esse o seu único ponto fraco: o calcanhar.

"Derrotava os inimigos como se eles não existissem, avançava e ocupava espaços como nunca se vira. (...) Um dia em que a guerra estava bastante acirrada em Tróia, Aquiles seguia para os portões da cidade, quando parou para zombar de dois pobres e infelizes troianos que estavam em seu caminho.  Aquiles gabava-se de seus grandes feitos, das cidades que havia aniquilado, dos tesouros que acumulava e do quão temível se tornara. Nesse momento uma lança reluzente foi atirada em sua direção, acertando-lhe o único ponto vulnerável de seu corpo: como se sabe, o calcanhar. A morte foi rápida. O destruidor de tantas cidades caiu estendido no chão. Não se sabe ao certo quem foi o autor do assassinato", página 37.

O autor faz comparativos do personagem da mitologia grega Aquiles com as crises de imagem enfrentadas por empresas e personalidades públicas revelando apontamentos a serem seguidos em gerenciamento de crises desenvolvidos ou não por equipes de Assessoria de imprensa. Para entender o que é uma crise de imagem, o autor define parafraseando Ian Mitroff, um dos precursores da administração de crises do mundo, o qual define que a crise de imagem difere das demais, 'quando ela tem origem humana, o que torna o caso potencialmente muito mais chamativo e perigoso', página 21. 

Para o estudioso, "em contraste com os desastres naturais, sobre os quais frequentemente temos pouco controle, falhas humanas provocam crise em função de ações ou de inações impróprias" e ainda: "Em princípio, falhas humanas podem ser previstas e, exatamente por esse motivo, o público se sente escandalizado quando elas ocorrem", página 21.

Mario Rosa também destaca em um certo capítulo abordagens acerca de 'Quando a crise é você', para aproximar o leitor do assunto em questão, declarando que é preciso que "você está sendo visto por pessoas estranhas, que não o conhecem como realmente é" e que "nos contatos com a mídia, na definição de sua estratégia, lembre-se sempre de que você será visto como o símbolo de algo". 

O autor traz modelos de Gerenciamento e de Administração de Crises e aponta também pilares que sustentam a imagem, a exemplo de: valores, novos valores e significados, e chama a atenção para que seja observado se a imagem é consistente, coerente, estável, e se tem capacidade para sobreviver e de organização. 

A narrativa de Mário Rosa apresenta nessa obra é sempre fundamentada por exemplos de empresas ou personalidades públicas que passaram por crises de imagens e na maioria das vezes, o que fizeram para contornar a situação, saindo vitoriosas ou não. Na época, adquiri o livro para estudos da disciplina de Assessoria de Comunicação, área em que atuo, e hoje caracterizo como uma leitura bem oportuna para o momento, além de rever alguns conceitos e apontamentos do autor que podem ser agregados ao dia a dia.

Por Analítica

terça-feira, setembro 22, 2020

O menino do pijama listrado (John Boyne e Oliver Jeffers)



"Há centenas de crianças aqui", disse Bruno, sem pensar realmente nas palavras antes de dizê-las. "Só que elas ficam do outro lao da cerca". (...) "Eu as vejo da janela do meu quarto", disse afinal. "estão muito longe, é claro, mas parecem centenas. Todas vestindo os mesmos pijamas listrados", página 274.

Infância, inocência, amizade, curiosidade, cumplicidade, descobertas. Essas são apenas algumas características que marcam a história de Bruno e Shmuel.  Dois meninos da mesma idade separados por realidades diferentes. "Quero saber daquelas pessoas que eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, lá longe. Estão todas com as mesmas roupas". "Ah, aquelas pessoas", disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. "Aquelas pessoas...bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno", página 90.

Agora depois de ter concluído a leitura, me questiono como pude ter deixado esse livro há tanto tempo na minha lista de espera. Algum tempo já tinha ouvido falar da obra e resolvi adquirir para meu acervo pessoal. "Quando eu era criança", disse Bruno para si mesmo, "costumava gostar de explorar. E isso ainda em Berlim, onde eu conhecia todos os lugares e sabia encontrar o que quisesse, mesmo vendado. Nunca explorei este lugar, talvez seja hora de começar", página 149.

Uma narrativa comovente, emocionante e mostra o quanto podemos aprender a partir da ingenuidade de duas crianças. "O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no chão com uma expressão de desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné listrado de pano. Não tinha sapatos ou meias, e os pés estavam um pouco sujos. Usava uma braçadeira com uma estrela desenhada. Quando Bruno se aproximou do menino pela primeira vez, ele estava sentado no chão de pernas cruzadas, olhando para a poeira debaixo de si. (...) Bruno teve a certeza de jamais ter visto um menino tão triste e tão magro em toda a sua vida, mas decidiu que seria melhor conversar com ele", páginas 162 e 163.

A partir do momento em que Bruno, o garoto alemão muda-se com sua família da casa em Berlim para uma casa isolada no campo, vê sua rotina mudar por conta da promoção de trabalho de seu pai. "Na verdade, para onde quer que ele olhasse, só via dois tipos de gente: se não eram os soldados felizes, sorridentes e gritalhões nos seus uniformes, então eram as pessoas infelizes e choronas de pijama listrado, a maioria das quais parecia estar olhando para o nada, como se estivessem de fato adormecidas", página 300.

Sem a presença dos antigos amigos, agora ele precisa de alguém para brincar. Pela janela do quarto da nova casa, ele vê ao longe algo que parece ser uma fazenda e pessoas que vestem pijama. Sua curiosidade o instiga a aproximar de forma escondida desse local. É quando conhece, do outro lado da cerca o garoto judeu, Shmuel. O mais incrível é a primeira percepção que Bruno tem em achar que se estivesse do outro lado da cerca, como Shmuel, ele teria mais amigos para brincar. 

"É tão injusto", disse Bruno. "Não entendo por que tenho que ficar encalhado do lado de cá da cerca, onde não há ninguém pra conversar nem para brincar, e você fica com dúzias de amigos e provavelmente brinca durante horas e horas todo o dia. Terei que conversar com meu pai a respeito disso", páginas 168 e 169.  

Nem mesmo a cerca é empecilho para uma grande e verdadeira amizade. São nesses encontros que eles brincam, riem, conversam e fazem planos de um dia estarem juntos em um mesmo lado. "Ele olhou para baixo e fez algo bastante incomum para a sua personalidade: tomou a pequena mão de Shmuel e apertou-a com força entre as suas. 'Você é meu melhor amigo, Shmuel', disse ele. 'Meu melhor amigo para a vida toda", página 310.

Em um desses planos que tentam realizar, ingenuamente motivados pela vontade de se ajudarem e de finalmente estarem próximos um do outro, a história de amizade entre os dois culmina em um final trágico e emocionante. "O soldado deixou tudo lá, intocado e foi buscar o comandante, que examinou a área e olhou para a esquerda e para a direita assim como Bruno fizera, sem ser capaz de compreender o que acontecera com o filho. Era como se ele tivesse simplesmente desaparecido da face da terra e largado as roupas para trás", página 311.

Embora sem final feliz, a narrativa consegue prender o leitor aos detalhes do enredo e o livro é uma ótima sugestão de leitura. Ao longo da história por vezes consegui imaginar o ambiente do campo de concentração, a voz dos meninos e me comover com tamanha inocência e ingenuidade dos dois garotos em meio a tanta maldade e tudo o mais que se possa imaginar de cruel numa história que se passa na época marcada pelos abusos do Nazismo.

Por Analítica 


quinta-feira, agosto 27, 2020

Afima, Pereira (Antonio Tabucchi)


"A filosofia parece só tratar da verdade, mas talvez só diga fantasias, e a literatura parece só tratar de fantasias, mas talvez diga a verdade. (...) dê espaço ao seu novo eu hegemônico, deixe-o ser, precisa nascer, precisa se afirmar". Entre efemérides e necrológios que escreve para a editoria Cultural do Jornal Lisboa, o jornalista doutor Pereira, afirma tomar uma limonada enquanto delicia uma boa omelete no Café Orquídea que fica próximo de sua sala de redação situada à Rua Rodrigo Fonseca, onde trabalha sozinho, longe da redação principal do jornal.

Doutor Pereira é um homem solitário, não tem família, não teve filhos e costuma conversar com o retrato da esposa falecida. Quase não tem amigos, a não ser o doutor Cardoso, Manuel, o garçom do Café Orquídea, Monteiro Rossi seu estagiário e a namorada Marta, uma senhora que faz a faxina de seu apartamento ou Celeste a zeladora do edifício onde mora sozinho. "...o senhor vive projetado no passado, o senhor está aqui como se estivesse em Coimbra trinta anos e como se sua mulher ainda fosse viva, se o senhor continuar assim, irá se tornar uma espécie de fetichista das lembranças, talvez comece a falar com o retrato de sua mulher. Pereira secou a boca com o guardanapo, baixou a voz e disse: eu já faço isso, doutor Cardoso. Eu vi o retrato de sua mulher em seu quarto, na clínica, disse, e pensei: este homem fala mentalmente com o retrato de sua mulher, ainda não elaborou o luto, foi isso mesmo que pensei, doutor Pereira", página 119.

A história se passa em Portugal de 1930. Desinteressado por política, doutor Pereira vive com as lembranças do passado. É católico e seu maior passa tempo é escrever os necrológios e efemérides para o jornal que trabalha ou fazer traduções do romance de autores do século 19.  Monteiro Rossi é o estagiário contratado por Pereira e encarregado de escrever os necrológios antecipados de escritores famosos para a sessão de obituário do jornal. Mas o jornalista não fica satisfeito com os textos do estagiário, que se envolve com questões políticas, some por um tempo e um final surpreendente lhe é reservado no seu retorno e abrigo dado por Pereira em seu apartamento. 

É o diretor do jornal, doutor Cardoso que chama a atenção de Pereira para que ele não escreva sobre autores franceses, mas sobre autores portugueses por se tratar de um jornal português. Cardoso também o aconselha a se desapegar do passado e viver mais o presente. "...não está escrito em lugar nenhum que este país seja para o senhor, e depois aqui há lembranças demais, procure jogar no bueiro seu superego e dê espaço a seu novo eu hegemônico, talvez possamos nos ver em outras ocasiões, e o senhor será um homem diferente", página 120.

É o meu primeiro contato com o autor Antonio Tabucchi. O designer gráfico do livro é interessante, a capa traz alguns elementos em alto relevo em referência aos azulejos portugueses e imagens de elementos presentes na rotina do personagem central, Pereira. O livro também apresenta algumas receitas culinárias que aparecem durante a histórias e que são preferências do personagem Pereira. 

No enredo, embora de ficção, o autor também não deixa de pincelar flashes de fatos históricos pertinentes para entender tópicos relevantes e que valorizam a narrativa. A exemplo da referência a dois momentos: o Salazarismo de Portugal (período ditatorial em Portugal, de 1933 a 1974, conhecido como Estado Novo. O termo “salazarismo” se refere a António de Oliveira Salazar, chefe de governo de Portugal nesse período que teve fim com a Revolução dos Cravos e originou a reconstrução da democracia portuguesa), e do Fascismo da Itália (movimento político instituído por Benito Mussolini em 1922. Um governo autocrático, centrado na figura do ditador Mussolini que defendia a superioridade da nação, estado e raça).

A leitura foi bem tranquila, fluiu rapidamente, os capítulos são curtos, que é algo que me atrai muito e a escrita do autor é simples, somente em alguns poucos momentos se revela técnica. Outra característica marcante da narrativa é que o texto, além de se apresentar em forma de um depoimento, predomina também a variação entre o sujeito (Pereira) e o verbo (afirma), fazendo alusão ao título do livro. Por vários momentos o leitor se depara com essa variação nos períodos: Afirma Pereira, ou Pereira afirma ou somente afirma, em que o autor utiliza dessa máxima comum à linguagem jornalistica.

Gostei desse livro do mês de agosto da @taglivros, uma experiência literária agradável que estou vivendo este ano e que até o momento tem sido bastante positiva, que tem me proporcionado a possibilidade de conhecer outros autores, contribuído para ampliar meu conhecimento de mundo, meu vocabulário, minha escrita e também para diversificar minhas leituras. 

Texto e foto: Analítica


A Travessia (William P. Young)

 


"Tony tinha a sensação de estar sendo puxado para cima, como se fosse atraído de forma irresistível em direção a um campo gravitacional suave, porém insistente. A sensação era de ser acolhido no colo materno, e ele não ofereceu resistência. Tinha uma vaga lembrança de ter entrado em uma luta que o deixara exausto, mas agora o conflito parecia desaparecer", página 24. 

A Travessia, William P. Young traz a história de Antony Spencer, conhecido por Tony, um milionário de quarenta e poucos anos, ateu e muito egoísta, que após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), fica um período hospitalizado em coma, longe da família e de amigos. "Com essas lembranças, ele começou  a subir mais devagar, até ficar parado na escuridão absoluta, suspenso em um momento de dúvida. Se Gabriel tivesse sobrevivido, será que aquele garotinho tão precioso teria salvado a existência patética de Tony? Três outros rostos lampejaram em sua mente, três pessoas com as quais havia fracassado de forma grave e terrível: Loree, seu amor da adolescência e duas vezes sua esposa; Angela sua filha, que provavelmente o odiava tanto quanto ele odiava a si mesmo; e Jake...oh, Jake, sinto muito, meu amigo", página 25.

Tony tem a oportunidade de encontrar Jesus e o Espírito Santo e de viver uma segunda chance para reavaliar suas atitudes e conseguir mudança."... o que é velho precisa ser derrubado para que o novo possa ser seguido. Para haver uma ressurreição, é preciso haver uma crucificação, mas Deus não desperdiça nada, nem mesmo as coisas más que nossa imaginação foi capaz de criar durante a existência. Em cada edifício demolido ainda resta muito do que um dia foi verdadeiro, correto e bom, e isso faz parte da criação do novo", página 112.

Nessa tentativa de mudança para melhor ele encontra pessoas que vão lhe mostrar um jeito simples de ver a vida e que podem lhe ajudar a aproveitar a chance para fazer algo de bom a qual lhe foi proposto em uma segunda oportunidade: curar alguém. Apesar de ser uma obra de ficção o enredo mostra a volta por cima do protagonista, e do seu desejo de mudança. outrora ateu, agora ele passa a buscar Deus para lhe ajudar a atravessar o novo momento e conduzir sua alma para um novo caminho. "O que importava naquele momento para Tony era simplesmente estar ali, dentro daquele relacionamento com os dois. Êxtase e tranquilidade permeavam sua alma, uma esperança serena e uma expectativa sem rédeas envolvidas em um manto de paz", página 194.

Embora A Cabana traga um enredo mais interessante e também por ser a obra que assinala o meu primeiro contato com o autor, A Travessia é também uma boa sugestão de leitura, e permite uma avaliação da proximidade e do relacionamento com Deus, além de uma reflexão acerca do nosso papel enquanto seres humanos, sobre erros e acertos e do que podemos fazer pelo outro.

Texto e foto: Analítica


A Cabana (William P. Young)

 


"A grande tristeza havia baixado como uma nuvem, e em graus diferentes cobria  todos os que tinham conhecido Missy", página 58. A Cabana é um convite à reflexão sobre o papel que estamos desempenhando neste mundo. É o tipo de livro que você lê e se surpreende por encontrar direcionamentos que estão bem mais próximos do que imaginamos. Uma proposta de mudança de vida e respostas à indagações tão presentes no nosso cotidiano. Não é por acaso que a obra se tornou um fenômeno de público com mais de dois milhões de exemplares vendidos.

O enredo traz a história de Mackenzie Allen Phillips, um homem que se tornou amargurado pela perda de sua filha caçula Missy. Ela tinha seis anos  quando foi sequestrada e brutalmente assassinada durante um acampamento de fim de semana com a família. "Como em todas as outras situações, o matador não deixara nenhuma pista que pudesse ser seguida, só o broche. Era como se estivesse lidando com um fantasma", página 57.  

Mack sempre se refere ao episódio como a 'Grande tristeza'. Após quatro anos,  ele tem a oportunidade de voltar à cabana, onde tudo aconteceu, para viver um grande momento: um encontro com Deus. "Mackenzie, já faz um tempo. Senti sua falta. Estarei na cabana no fim de semana que vem, se você quiser me encontrar, Papai", página 19. Em conversa com Deus, Jesus e o Espírito Santo, Mack tem a chance de aprender grandes lições na tentativa de crescimento espiritual. "A saída é voltar-se para mim (...)  Os homens por sua vez, acham muito difícil dar as costas para as obras de suas mãos, para sua busca de poder, segurança e importância. Também acham difícil retornar para mim", página 134.

Em certos momentos, o autor também faz alusão à narrativa bíblica para fundamentar alguns trechos do enredo, a exemplo da passagem mencionada em Mateus 14, em que Jesus caminha sobre a água com o discípulo Pedro. "Seus sapatos ficaram molhados no mesmo instante, mas a água não subiu nem mesmo até os tornozelos. O lago ainda se movia ao seu redor e ele quase perdeu o equilíbrio por causa disso. Era estranho. Olhando para baixo, era como que seus pés estavam sobre algo sólido, mas invisível. Virou-se e viu Jesus ao seu lado segurando os sapatos e as meias numa das mãos e sorrindo", página 130.

O crescimento de Mack se dá no decorrer das experiências que lhe são permitidas, a exemplo da oportunidade que ele tem de ser juiz, da aula de voo e de fazer escolhas. "A medida que você cresce no relacionamento comigo, o que fizer simplesmente refletirá quem você realmente é", página 135. Aos poucos Mack vai também se libertando do sentimento de culpa que ainda sente em torno da morte da filha. "Só você em todo o universo acredita que tem alguma culpa (...) talvez seja hora de abandonar essa mentira. E mesmo que fosse culpado, o amor dela é muito mais forte do que a sua falha jamais poderia ser", página 155. O ponto alto da narrativa é quando é proposto ao personagem o perdão ao assassino da filha e o compromisso com o amor a Deus e ao próximo. "Lembre-se, as pessoas que me conhecem são aquelas que estão livres para viver e amar sem qualquer compromisso", página 168.

Distribuídos em 18 capítulos, é uma leitura envolvente contada de forma prazerosa. A primeira vez que li foi há 10 anos, mas desta vez a leitura foi mais intensa, acho que por conta de que eu precisava ouvir mais agora, as mensagens/lições que o livro traz. Mas em suma, o livro traz uma linguagem simples, envolvente e bem criativa para falar de Deus e seus ensinamentos. De certa forma, é também um convite para avaliarmos o nosso relacionamento e proximidade com Deus e para nos questionarmos acerca da nossa missão de vida.   

Texto e foto: Analítica

O homem mais rico da Babilônia (George S. Clason)

“Era uma vez, na antiga Babilônia, um homem muito rico chamado Arkad. Conhecido em toda parte devido à sua imensa riqueza, tornara-se igualm...