segunda-feira, outubro 12, 2026

Aiba 35 anos: memórias de uma associação e de uma região em movimento (Catarina Guedes)



Há hstórias que semeiam o passado, celebram o presente e inspiram o futuro. “A trajetória de um território que deixou o isolamento para se afirmar como uma das mais importantes regiões agrícolas do Brasil na atualidade” (p. 18). 

É nesse contexto,  entre a lembrança e o reconhecimento, que se insere a obra 'Aiba 35 anos: memórias de uma associação e de uma região em movimento'. De autoria da jornalista Catarina Guedes, o livro celebra os 35 anos da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), e registra as transformação de um território, e de sua trajetória que se confunde com a história recente do Oeste da Bahia.

Tive a oportunidade de participar da curadoria do livro, experiência enriquecedora e compartilhada com colegas de trabalho que se dedicaram à construção da obra, e de um trabalho que reúne documentos, depoimentos, registros fotográficos e memórias capazes de traduzir a dimensão de uma caminhada coletiva. 

O prefácio, assinado pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, acrescenta à publicação uma reflexão sobre a relevância do associativismo e o papel do agronegócio no desenvolvimento regional.


O livro revela como uma região marcada por limitações de infraestrutura e pelos desafios de ocupar produtivamente o Cerrado se tornou referência nacional na produção agrícola. Mas, sobretudo, demonstra que, por trás dos números, das lavouras e da expansão econômica, existem pessoas, sonhos, renúncias, parcerias e uma disposição permanente para transformar dificuldades em possibilidades.

Dividida em três capítulos: Do 'Além São Francisco' ao Coração do Cerrado; A Aiba Somos Nós e Bahia Farm Show: duas décadas de sucesso, a obra conduz o leitor por diferentes tempos dessa história, conectando as raízes da ocupação agrícola, a consolidação institucional da associação e a realização de uma das mais importantes feiras de tecnologia agrícola e negócios do país.

No primeiro capítulo, Do 'Além São Francisco' ao Coração do Cerrado, somos convidados a percorrer os caminhos de uma região e os relatos de uma época em que as distâncias pareciam maiores, as estradas eram escassas, os recursos limitados e cada conquista exigia perseverança. A narrativa recupera a saga de pioneiros e pioneiras que acreditaram no potencial da terra e contribuíram para que municípios como Barreiras e Luís Eduardo Magalhães se consolidassem como importantes polos do desenvolvimento agrícola regional.

Há, nesse resgate, uma dimensão humana que torna a leitura especialmente significativa. A história não se constrói apenas com máquinas, investimentos ou tecnologias, mas também com a capacidade de resistir, compartilhar e seguir adiante, mesmo quando as condições parecem desfavoráveis.

“Era uma vida muito dura, mas nem por um segundo nós arrependemos. Todos nós nos valíamos da solidariedade entre vizinhos. Se um trator atolava, todo mundo ajudava. Se um precisasse de óleo, o outro emprestava", (pág. 33).

Nesse testemunho, encontra-se uma das chaves para compreender a formação do Oeste baiano: a solidariedade como instrumento de sobrevivência e a cooperação como fundamento do crescimento. Antes de se tornar uma região reconhecida pela força de sua produção, o Cerrado foi espaço de encontros, de aprendizados e de mãos estendidas. A adversidade aproximou pessoas que compreenderam, na prática, que determinados desafios só poderiam ser superados coletivamente.

O capítulo também evidencia como problemas estruturais, a exemplo da ausência de estradas e pontes adequadas para o escoamento da produção e as limitações no fornecimento de energia, as dificuldades relacionadas à disponibilidade e ao uso responsável da água, contribuíram para aproximar produtores em torno de interesses comuns. Da necessidade de buscar soluções nasceu a mobilização que, mais tarde, daria forma e consistência à atuação institucional da Aiba. “Em cada etapa, repetia-se o mesmo padrão: estudar o problema, formular proposta, negociar", (pág. 66).

A trajetória apresentada na obra, revela que o desenvolvimento regional não acontece por acaso, mas fruto de articulação, persistência e capacidade de transformar reivindicações em conquistas.

Já o segundo capítulo, 'A Aiba Somos Nós', desloca o olhar para a atuação da entidade ao longo de mais de três décadas, apresentando projetos, ações e programas desenvolvidos em frentes estratégicas como agronegócio, infraestrutura, relacionamento com os associados, sustentabilidade e iniciativas conduzidas pelo Instituto Aiba.

Nesta parte da narrativa, a memória se encontra com o presente. Os relatos e dados demonstram como a associação ampliou sua atuação, acompanhando as transformações de uma região que cresceu em escala, complexidade e relevância econômica. As demandas que antes mobilizavam um pequeno grupo de produtores passaram a exigir planejamento, conhecimento técnico, diálogo institucional e soluções cada vez mais sofisticadas.

“Não se trata apenas de ampliar a malha viária, mas de consolidar as bases estruturais que sustentam o crescimento do Oeste”, presidente da Aiba, Moisés Schmidt (pág. 99).

Esta assertiva ajuda a compreender a dimensão estratégica da infraestrutura para além de sua materialidade. Estradas, pontes e sistemas de energia não são apenas estruturas físicas, mas são caminhos que conectam pessoas, encurtam distâncias, viabilizam negócios e criam condições para que o desenvolvimento alcance novas fronteiras.

O capítulo também aborda os principais cultivos que projetaram o Oeste baiano no cenário agrícola nacional, evidenciando a evolução produtiva e tecnológica de uma região que aprendeu a reconhecer suas potencialidades e a investir no aprimoramento de seus sistemas de produção e  temáticas que atravessam a história.

“Quase quatro décadas depois, a preocupação com a água continua sendo um tema central que, assim como um rio, repassa todas as frentes de trabalho da entidade, seja com mais ou com menos intensidade. O que mudou foi a complexidade e o arsenal tecnológico para suportar a inteligência na construção de soluções”, (pag. 103).

Ao longo da narrativa, são trazidos registros acerca da evolução das preocupações da associação evidenciando a importância de conciliar desenvolvimento econômico e compromisso com o patrimônio natural. O capítulo se encerra com uma Galeria dos Presidentes, que reúne os sete gestores que estiveram à frente da entidade, destacando suas percepções sobre a Aiba.

O terceiro capítulo, Bahia Farm Show: duas décadas de sucesso, celebra uma iniciativa que se tornou símbolo da capacidade de inovação e articulação do agronegócio regional. Promovida pela Aiba e com o apoio de outras instituições parceiras, a feira consolidou-se como espaço de apresentação de tecnologias, realização de negócios, intercâmbio de conhecimento e aproximação entre os diferentes agentes do setor.

Ao recuperar o nascimento da feira, seus primeiros passos, as mudanças de denominação, inicialmente Agrishow, as logomarcas, as parcerias, as temáticas, as personalidades presentes e os marcos de sua evolução, o livro revela como uma iniciativa construída com visão e determinação ganhou dimensão e reconhecimento. Os registros sobre o crescimento do evento ao longo das edições, assim como as homenagens a presidentes e coordenadores, ajudam a compor um mosaico de contribuições que fizeram dessa realização uma referência para o setor agrícola.

“A Bahia Farm Show evoluiu com o agro, ganhou infraestrutura robusta, paisagismo e uma série de facilidades para a segurança e o conforto de expositores e visitantes. A cada ano, a feira se supera em números e aprimoramentos, o que faz dela não apenas uma das maiores, como uma das melhores mostras de tecnologias agrícolas do país”, (pág. 159).



O trecho traduz a dimensão alcançada pelo evento e, ao mesmo tempo, permite reconhecer o esforço continuado de todos aqueles que contribuíram para sua consolidação. Grandes realizações não se constroem em uma única edição. São resultado de planejamento, capacidade de adaptação, parcerias duradouras e disposição para fazer sempre melhor. A feira se configura como um capítulo vivo de uma história que continua sendo escrita.

O livro apresenta uma leitura fluída e envolvente, favorecida pela escrita de Catarina Guedes e pelo projeto de diagramação de Eduardo Nóbrega, que traduz um diálogo harmonioso entre texto, imagens e registros documentais. O cuidado visual não apenas acompanha a narrativa, mas contribui para dar materialidade à memória, aproximando o leitor dos personagens, dos cenários e das diferentes etapas dessa trajetória.

As fotografias históricas cedidas por associados, somadas aos registros do banco de imagens da associação e de agências que acompanharam esse percurso, conferem à publicação uma dimensão documental valiosa. São imagens que preservam rostos, paisagens, encontros e momentos decisivos, permitindo que diferentes gerações reconheçam as marcas de um passado que permanece presente. Cada fotografia parece guardar um fragmento de tempo, lembrando-nos de que a história também se conta pelos detalhes que a palavra, por vezes, não consegue alcançar.

O Analitica participou do lançamento oficial da obra que ocorreu durante a abertura oficial da 20ª edição da Bahia Farm Show, em junho deste ano, que contou com a presença do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues (Prefaciador do livro), de ex-presidentes da associação, membros da diretoria e produtores associados. A ocasião foi marcada pela celebração de uma história compartilhada e pelo reconhecimento daqueles que ajudaram a construir os caminhos percorridos pela entidade e pela região.


Participar da curadoria dessa publicação significou olhar para uma história que continua em movimento e compreender, com ainda mais clareza, o valor de preservar a memória de uma região e de uma instituição que se desenvolveu em estreita relação com o território onde atua.

Por isso, 'Aiba 35 anos: memórias de uma associação e de uma região em movimento' é uma leitura que recomendo, pela relevância histórica, pelo valor documental e para compreender o desenvolvimento de um território e de uma associação. A obra oferece ao leitor muito mais do que uma retrospectiva institucional: oferece uma narrativa de pertencimento, de perseverança e de futuro. 

Que venham novas histórias, novas publicações e outras oportunidades de participar de projetos que transformem experiências em conhecimento, lembranças em patrimônio e trajetórias coletivas em inspiração. Afinal, há histórias que merecem ser contadas e há memórias que, quando compartilhadas, continuam semeando o futuro.

Por Analítica - 12.10.2026

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