quinta-feira, junho 17, 2010

O Asa arrêa a galera meu irmão!


Vocalista da banda, Durval Lélys

Sábado 12 de junho não foi apenas o dia dos namorados, era também o dia do Asa de Águia em Barreiras, um dos shows mais esperados do ano. Afinal são quase cinco anos após a apresentação em São Desidério durante a Festa da Paz em setembro de 2005, e 14 anos que estiveram em Barreiras. Na terça-feira que antecedia ao show, os esforços eram para adquirir os ingressos o mais rápido possível. Nunca imaginaria que pudesse percorrer a cidade de ponta a ponta na tentativa de encontrar o vendedor de ingressos que circulava em uma moto bis em tempo que fazia a divulgação do show. Eram mais de 21h30min. A piada da noite foi ficar em frente ao Bar do Dega, situado à Avenida JK por mais de meia hora esperando o vendedor passar sem saber que o bar era também outro local de venda. Essa até minha mãe sabia! Mas ao final, ingressos adquiridos aumentavam as expectativas.

Sábado à tarde últimos reparos no abadá. Sábado à noite 19h59min e lá estávamos na rodoviária à espera do ônibus. Eu, o namorado Marcos, my sister Six, Vinicius, Túlio e Wall. Fui a primeira a entrar no ônibus. Será que estava mesmo com vontade de ir? Não estava frio no Parque de Exposições Engenheiro Geraldo Rocha. Agora. Já não sabia mais como era curtir um show assim sem precisar fazer cobertura, entrevistas, perdendo os melhores momentos enquanto queria estar mesmo dançando, pulando, gritando.

Enquanto o show não começava uma banda fazia a festa em um trio. Um helicóptero de cor preta que sobrevoava o parque estava escrito Asa de Águia. Cada vôo rasante animava a multidão e parecia testar o público. “Que galera é essa meu irmão?”.


Da esquerda para a direita, Vinicius, Anna Six, Marcos, Ana Lúcia, Wall e Túlio

Terminava a apresentação da primeira banda e o público corria em direção a outro trio posicionado ao final da pista. E lá estava ele. Durvalino Meu Rei, que não só canta, mas encanta o público com sua graça ao longo de 22 anos de Asa. O início do show foi marcado pelo vale night, um dos principais sucessos do carnaval deste ano.
Foi aquela euforia. Paralelo ao trio descia a multidão enlouquecida embalada ao som das músicas da melhor banda de axé de todos os tempos. Muitos casais de namorados curtiram o dia dedicado a eles aos versos de “Dia dos namorados, nós dois abraçados a sós”,.... “Me abraça, me beija, me chama de amor”,... “Porque eu sou louco por você lá no farol”.

Não havia mais nenhum espaço. Calor e muita cerveja para o ar. Muitos que estavam no camarote fizeram questão de descer à pista que por sinal estava mais repleta, mais animada e por isso mais interessante. Do alto do trio ecoava uma voz que dispensa esforço acompanhada daquele jeito de balançar o corpo enquanto toca a guitarra, do sorriso a cada intervalo dos versos e do levantar das sobrancelhas, características que fazem do semblante de menino malandra de Durval Lélys mais carismático, ainda mais quando grita “O Asa arrêa!” e a galera responde “arrêa, arrêa, arrêa, arrêa”. Literalmente, é mesmo de ficar arreado! E quando o show acabou, veio o frio, o zumbido na cabeça, e as músicas, na veia.

Produzido por Ana Lúcia Souza em 17.06.10
Fotos: Ana Lúcia Souza e Simone Chaves

quarta-feira, junho 16, 2010

Ô promessa maldita, ô promessa sem jeito!



Já falei por aqui anteriormente que entre muitas coisas que o trabalho de jornalista permite é a possibilidade de correr riscos e encarar fortes aventuras. A bem da verdade essa é com certeza a melhor parte. Você faz uma pauta para ter mais ou menos uma noção do que irá fazer não se esquecendo do pensamento preliminar. Na hora H tua pauta pode tomar outro desfecho. Sem contar as situações que você inesperadamente terá que viver na pele para melhor descrever posteriormente.
Foi assim em mais um episódio da minha vida de repórter da Assessoria de Comunicação da prefeitura de São Desidério, onde trabalho há um ano e seis meses como repórter. Acompanhada da colega Jackeline Bispo, que já se tornou minha sócia de aventuras, resolvemos encarar mais um desafio. Desta vez 110 degraus no Morro de Santa Cruz no povoado de Riacho Grande, a cerca de 8 km da sede do município. Uma tradição que é passada de pai para filho há mais de cinquenta anos. À tarde os fiéis sobem um morro íngreme até chegarem ao topo onde foi fincada uma cruz de madeira. Lá fazem preces e agradecem graças alcançadas. A tradição é a cada ano revivida no dia 03 de maio, considerado o dia de devoção à Santa Cruz.
Pela manhã missa solene e batizados na igrejinha do povoado. Depois de recolher alguns depoimentos de moradores e devotos já era meio dia e fomos almoçar. Enquanto almoçávamos, a casa onde estávamos nos permitia uma miragem do morro, motivo que nos deixava cada vez mais em dúvida se realmente iríamos cumprir a missão designada. Não sei como mais vimos naquele momento alucinógeno a possibilidade de fazer uma promessa. Fizemos juntas uma prece comum aos nossos interesses pessoais, na esperança de que se concretizasse naquele instante.
- Se conseguirmos Ana, prometo que agora vou achar forças para subir aquele morro! Falou convicta Jackeline apontando para o morro.
- É verdade Jacky. E ainda digo mais. Se nós conseguirmos, os últimos dez degraus serão de joelhos. Completei.
- O quê? Assustou Jacky. – Tá bom! Confirmou ela depois.
Estávamos um tanto incrédulas de que aquela promessa iria mesmo dar certo e até sorrimos. Mas o que não imaginávamos é que a graça alcançada fosse mesmo tão rápida. Digo rápida mesmo. Em menos de meia hora. Deve ter sido a promessa mais rápida que já deve ter acontecido. Alcançamos juntas uma graça e a felicidade do momento, sim, porque tínhamos a certeza de que havíamos conseguido mesmo, nos fez ir para o morro minutos depois. Só não pensávamos que este pagamento sairia tão caro.
Eram mais de 15 horas e mesmo assim o sol ainda estava escaldante quando resolvemos subir o morro. Os nossos ânimos eram poucos ainda mais depois de um almoço farto. Pausa para descansar. Um olhar rápido pelos degraus e a sensação de demora. E nos últimos degraus então, esses foram os mais cruéis. A impressão é que eles foram maiores do que os cem.
- Ô promessa maldita, ô promessa sem jeito. Dizíamos. Mas valeu a pena.

Por Ana Lúcia Souza em 15.06.10
Foto: Léo Moreira

terça-feira, maio 18, 2010

Uma sessão da comunicação em São Desidério

“Não perca, não perca! Hoje no Cine União às 20 horas o filme: ‘Ela tornou-se freira’, com Teixeirinha e Mary Terezinha. Gênero, drama, musical”. Grita um garoto vestido de cartaz do anúncio e faz a divulgação pelas ruas. Corre o ano de 1978 e são pouco mais de quatro da tarde, de uma sexta-feira qualquer. Do Clube Santo Onofre, o único da cidade localizado em uma das poucas ruas de chão batido de São Desidério próximo ao rio, os auto-falantes instalados no teto anunciam a sessão do dia no Cine União, que aí funciona. O clube de propriedade do maestro Heliodoro Alves Ribeiro foi alugado em 1976 aos sócios, Demósthenes da Silva Nunes e Édio Antonio Alves Ribeiro, neto do maestro.

A cidade é pacata e as pessoas andam a pé o tempo todo. O único veículo que circula é o jeep de seu João Elói. Não há outro atrativo e por isso muitas pessoas, dos mais jovens aos mais velhos, dependendo da censura, freqüentam o cinema como uma diversão. O gênero mais pedido é o de bang-bang e por isso a notícia do filme de hoje não agradou muito. Um outro filme já havia sido anunciado e de última hora, não se sabe por qual razão, foi trocado pelas distribuidoras de Salvador.

Às 19 horas a bilheteria é aberta para vender os ingressos da sessão que começa às 20 horas. Os primeiros expectadores chegam e se aconchegam nos bancos de madeira. Como era de se esperar, poucas pessoas compareceram ao cinema quando souberam que o filme foi trocado. Geralmente o local costuma ser freqüentado por cerca de 80 pessoas. Mas algo inédito aconteceu no Cine União esta noite. Os olhos dos expectadores brilham diante da história dramática projetada por uma película em 16 milímetros. A repercussão foi inesperada. Quem não viu o filme pediu para repetir e assim, ele foi reprisado por 13 vezes.

Pela passagem do Dia Mundial da Comunicação, no último domingo 16, uma lembrança dos primeiros indícios de comunicação em São Desidério, a partir de sua emancipação política em 1962. Aos poucos a cidade que se comunicava apenas por meio de carta, telegrama e se informava pelas notícias veiculadas no rádio, passou a contar com o primeiro sistema de comunicação. O serviço de auto-falante 'A voz do progresso', implantado pelo maestro vindo de Angical, Heliodoro Alves Ribeiro em seu clube Santo Onofre, revolucionou a comunicação da cidade. No clube, foram instalados dois auto-falantes de grande alcance, o local foi escolhido porque naquela época existiam poucas residências, concentradas próximas ao Rio São Desidério. Por volta de 1966, na primeira eleição após a emancipação, o serviço de auto-falantes passou a ser usado em propagandas eleitorais e comícios. Nesse ano, Demósthenes da Silva Nunes, natural de Santana, Bahia, filho de Hortência Ferreira Nunes e de Sinésio da Silva Nunes – terceiro prefeito do município, já falecido, desempenhava a função de mestre de cerimônias oficial. Ocupou o cargo até setembro de 1976, período correspondente aos mandatos dos ex-prefeitos Manoel Rodrigues de Carvalho, Sinésio da Silva Nunes e Antonio Pereira da Rocha. “Tinha uma equipe para cuidar dessa parte de cerimonial e as apresentações, os palanques costumavam ser mesmo em cima de carrocerias de caminhões ornamentadas”. Em 1976, Demósthenes, assume juntamente com Édio Antonio Alves Ribeiro, falecido em 2009 em Angical, o serviço de auto-falante que passou a se chamar 'Serviço de Auto-falante do Cine União'. O nome justificava a projeção de filmes dentro do clube. Demósthenes explica que a ideia surgiu com a vinda de gringos e ciganos com circos que costumavam acampar por aqui em determinado tempo conseguindo reunir muita gente. “Divulgávamos festas, anúncios como falecimento e notas de utilidade pública. Eram dois auto-falantes. Um virado contra o outro e fixados numa haste de madeira no telhado do clube. O estúdio ficava logo abaixo onde existia uma máquina e um aparelho amplificador.

O filme chegava às sextas-feiras e às 20 horas era projetado. Tinha um retorno financeiro excelente e estava sempre lotado”, declarou Demósthenes. Em datas especiais, como do aniversário da cidade, era comum as pessoas participarem enviando cartas para pedir e oferecer músicas. Mas não seguia uma programação normal, o serviço estava sempre preparado para entrar a qualquer momento no ar. “A gente usava uma música como prefixo, abaixava o som e falava: neste horário entra no ar em edição extra, a voz do serviço de auto-falante Cine União com a seguinte nota. E no final: - O serviço de auto-falante a Voz do Cine União agradece a todos pela sua audiência e tenham uma boa tarde”, disse Demósthenes. Mesmo com a sessão iniciada, a grande procura fazia com que a bilheteria continuasse aberta. Geralmente eram projetados três filmes por semana, às sextas-feiras, sábados e domingos. Em tempo de campanhas políticas o sistema também passou a circular na zona rural por meio do auto-falante ligado a uma bateria de 12 volts em um carro.

Apesar de oferecer entretenimento à população, o Cine União funcionou até 1979. “Com o alto custo dos filmes que vinham de Salvador, fornecidos pelas distribuidoras Condor Filmes e Sergipe Filmes para o Cine Roma de Barreiras, que passou a não mais adquirir os filmes e fechou, e por isso não tinha como fazer os filmes chegarem aqui. Foi um impacto, as pessoas sentiram muita falta”, revela Demósthenes. Após a morte do maestro a família se desfez do clube e se mudou para Angical. O clube foi vendido e no lugar erguida outra construção. Hoje, ao ver um dos auto-falantes que guarda como relíquia dos tempos do serviço de auto-falantes do cine união, que ele garante ainda funcionar perfeitamente, Demósthenes relembra com emoção. “Essa peça eu guardo com muito amor, porque foi através dela que demos continuidade ao sistema de comunicação no município e do cinema. Tinha o prazer de ver o pessoal se divertindo. Até hoje gosto de assistir filmes de bang- bang”, completa.

Demósthenes ainda relata quando em São Desidério não havia energia elétrica antes de 76. “Tudo era escuro. Saiam rapazes e moças nas ruas com lanternas. Em noites de lua cheia, à meia noite eram feitas serestas com uma radiola. A energia era a motor e tinha postes de madeira nas ruas, que não satisfazia muito e a carga durava apenas por umas duas horas. Então o deputado Rui Barcelar pediu ao prefeito Antonio Rocha para ir em Salvador assinar um convênio e depois disso foi implantado um gerador aqui e postes de cimento”. Por volta de 1982 chegam os primeiros aparelhos de TV em São Desidério e em 1978, o telefone.

Por Ana Lúcia Souza
Texto publicado na 2ª Edição do Jornal de São Desidério

terça-feira, maio 04, 2010

A emoção de escrever um livro-reportagem


Em 2009, no último ano de faculdade, o sétimo semestre foi o mais dramático de todos. É quando se pensa demais no tema e modalidade em torno do qual será desenvolvido o anteprojeto. É pior que o oitavo correspondente a produção e defesa do Trabalho de Conclusão de Curso porque nessa fase já esta tudo definido. No sétimo semestre até você definir o que fazer a proximidade do prazo faz você chegar a lugar nenhum. Aí você começa a se iludir e pensar demais, em algo que seja grande, algo fora do comum que ninguém nunca fez e logo é natural o medo de não dar conta do recado. Mas o que seria?

Em comunicação social com habilitação em jornalismo você conta com opções mais dinâmicas. Além da tradicional monografia, uma revista, um site, jornal impresso, documentário e livro-reportagem. Era pesadelo dia e noite. Parecia que todos os colegas já haviam decidido. Queria alguma coisa que fosse ao mesmo tempo divertida partindo do princípio de que apesar de ter passado por muitas emoções, não podia sair da faculdade sem antes viver uma grande aventura. Essa aventura começou a partir do momento que aceitei encarar o desafio de escrever um livro-reportagem sobre o Rio Grande com Jackeline Bispo e Luciana Roque e juntas começarmos também a história das Meninas do Rio. Uma amizade que certamente prevalecerá para o resto de nossas vidas. Tínhamos que fazer muitas viagens e nem imaginávamos o que nos reservava esse trabalho.

Por não existir informações concentradas acerca do Rio Grande foi o fato norteador da produção do livro. Fugindo ao convencional a essência do livro consiste em reunir histórias de pessoas que vivem a margem desse importante recurso hídrico, gente que ainda tira do rio o próprio sustento, um pouco do desgaste que vem sofrendo, o resgate de lendas, receita, poesias, personagens e tudo de interessante que encontramos pelo caminho. Três estudantes com pouco dinheiro e com muita coragem.

Sem planejamentos em lugares inusitados pela terra e água. Muitas vezes nem sequer sabíamos onde ir e quem procurar. O Rio Grande nasce em São Desidério, passa por sete municípios e tem sua foz em Barra. E foi lá que começamos nosso trajeto. Pelas ruas da cidade centenária, casarões, calmaria e em cada canto a presença de estátuas despertou nossa curiosidade para saber de onde vinham. Gérard era o artesão. Para nossa surpresa a argila que ele usa vem do fundo do Rio Grande. Um trabalho marcado por coincidências e por que não dizer providências do destino. Rendeu também o contato com pessoas que lutam por questões ambientais e vida dos rios, mesmo que não seja especificamente a do Rio Grande como o Frei Luiz Flávio Cappio famoso pela luta pela revitalização do Rio São Francisco e por fazer duas greves de fome. Ele também foi um dos personagens do livro. O nosso desencontro com o bispo em Barra fez com que perdêssemos as esperanças. Quase dois meses depois tivemos a felicidade de encontrá-lo às margens do Rio Grande em São Desidério. Oportunidade única.

A caminhada para encontrar a nascente em São Desidério debaixo de um sol escaldante. Pontos turísticos, belezas naturais, paisagens exóticas. Viagens de barco, perigo e muita adrenalina. Dois momentos foram marcantes. A travessia de barco no encontro do Rio Grande com o Rio São Francisco em Barra e 40 minutos que andamos de barco até Jupaguá debaixo do sol de meio dia e o retorno inesperado no meio do caminho por conta da gasolina insuficiente do barco. Nos deparamos com um dos trechos do rio ainda intocados pelo homem com a presença de espécies como o camaleão e o macaco guariba. Só de imaginar que aquele era também o mesmo trecho por onde um dia passaram grandes embarcações é de arrepiar.

O Diário de bordo foi a maneira que encontramos para nos inserirmos no livro porque foram muitas as aventuras e até para justificar um pouco da proposta inicial do nosso livro que era fazer um diário de bordo de uma viagem fluvial por todo o percurso navegável do rio que infelizmente por ausência de recursos e por conta do tempo disponível não foi possível realizar. Essa é a parte do livro onde se encontram descritas detalhadamente as entrevistas, as surpresas, coincidências,os perigos e aventuras como: perseguição de estranho na madrugada que chegamos em Barra, manobras bruscas de barco (eu precisamente por estar acima de cerca de 3 metros de água e só aí me lembrar que não sei nadar, andar agachadas em mata fechada a procura da nascente do Rio Grande, atravessar um pasto com nove touros na fazenda onde se encontra a nascente, receber pedido de casamento de velhinhos solitários com mais de 80 anos.

Ao todo foram cerca de 1900 km rodados e erramos muitas estradas. Agora resta a esperança e muita vontade de um dia publicar essa produção que se desencadeou em “Um rio de histórias”.

Por Ana Lúcia Souza em 04 de maio de 2010
Foto: Ana Lúcia Souza

Pernas pra que te quero


Terça-feira, onze de novembro de 2008, 21 horas. O ônibus já está parado em frente à faculdade e alunos do curso de comunicação social da Fasb começam a se acomodar nas poltronas. Esse é mesmo um ano de viagens para mim. Primeiro o Intercom em Natal em setembro e agora a visita técnica em Brasília. Todos estão na maior expectativa. Parece que a minha mala é a maior de todas. Sei que não iremos pernoitar. É apenas um dia de visitações sem tempo para dormir. As únicas pausas mais prolongadas serão para o banho e almoço. Mas vou ficar por lá até o final da semana a convite da amiga Michelly. Dá pra sentir a energia e expectativa de todos. Agora são mais de meia noite e ninguém consegue dormir. No corredor a bagunça toma conta. Cantando, pulando, gritando no embalo de um homem que toca violão e gaita, ao qual batizamos de Chico da gaita. Às 03h30min a primeira parada em uma lanchonete. Uma batata frita engana o estômago muito bem. Todos acomodam-se como podem e a viagem prossegue. Agora mais tranqüilos, mais sonolentos. Às seis o professor José Cécecesar - isso mesmo, porque ele fica gago as vezes - nos espera em um determinado ponto previamente combinado. Por morar em Brasília, foi ele quem ajustou a agenda para visitação. Teríamos um longo dia pela frente. Depois do café rumamos para a UNB onde tivemos o privilégio de participar de uma reunião de pauta do jornal laboratório da universidade, aulas e uma palestra com a professora Thais de Mendonça Jorge. Sua presença certificou que eu não estava livre de mais uma coincidência. Ela é autora de Manual do foca, um dos livros que pude comprar na feira de livros no Congresso em Natal. Só que para o meu azar não havia levado o livro. Mas pedi que autografasse um pedaço de papel que se tornou uma de minhas relíquias. Somente em 2009 ela autografaria o meu livro durante uma oficina sua sobre jornal impresso ministrada durante o Congresso de Iniciação Científica – CIC na Fasb.
A tarde reservava um dos momentos mais esperados. A visita nas adjacências do centro do poder público brasileiro. Congresso – subimos até o 20º andar, Câmara, Senado, os estúdios da rádio, TV e redação do Jornal Senado. A hora mais incrível foi a passagem pelo salão verde onde se concentra toda a imprensa, momento em que senti um forte desejo de me especializar em jornalismo político, que por coincidência também era a editoria que o meu grupo aprofundava na faculdade. Chegava o momento da despedida. Não para mim, mas para os colegas. Nos dias que ainda permaneci em Brasília aproveitei o dia para conhecer um pouco mais capital federal. Um passeio pelo centro de Taguatinga, shoppings com enfeites que já prenunciavam o período natalino, compras, na faculdade Católica onde Michelly estuda. No sábado, feriado de 15 de novembro ultrapassei meus limites e testei a capacidade de minhas pernas que andaram como nunca e em alta velocidade. Pelo plano piloto percorremos, eu e Michelly a pé por 25 minutos, da Catedral passando pelos Ministérios, Congresso até chegar a Praça dos Três Poderes. A princípio um sol de lascar até que as nuvens cobriram todo o céu que se tornou um manto azulado. Era o céu de Brasília. Para nossa surpresa, após bater a última foto cai uma chuva forte. Pernas pra que te quero. Foi uma corrida e tanto até chegar ao ponto de ônibus mais próximo e voltar para casa. À noite ainda tínhamos muita disposição e saímos para minha primeira balada em uma boate em Brasília até as 04 da madrugada. Era A mais.com. O difícil foi tentar convencer minhas pernas a se porem de pé no outro dia. Elas travaram e quase não consegui levantar.

Por Ana Lúcia Souza após a visita técnica à Brasília em novembro de 2008

Natal, I have to go now


Terça-feira, 03 de setembro de 2008. Desembarcamos à linda Natal, Rio Grande do Norte. Desta vez são meus companheiros de aventura os colegas Anton, Bruna, Simone e Thiara. Após uma viagem de 36 horas, do cansaço e um dia e meio sem tomar banho, nada de descanso. Aquele era o meu primeiro congresso e a primeira vez que viajo em companhia apenas de amigos. A palavra de ordem era aproveitar ao máximo durante toda a semana e só descansar no ônibus durante o retorno à Bahia que só aconteceria no domingo de manhã. Depois de nos situarmos em nosso novo espaço, que por sinal era muito agradável, o apartamento de Bete, amiga da Thiara, nos dirigimos a Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, para o credenciamento. A estrutura é imensa. Uma biblioteca de dar água na boca, área de lazer, alimentação, artesanato, agências bancárias, feiras de livro – comprei uns seis. Gente de todo tipo, de todos os lugares, brasileiros e estrangeiros, profissionais e estudantes. A edição 2008 do Intercom – Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação abordou o tema central Mídia, Ecologia e Sociedade. Palestras, cursos, oficinas, mesas de debate e uma infinidade de opções. Em uma das palestras sobre temas livres do meio comunicacional, um vislumbre. A mídia passa o tempo todo reconstruindo o passado por meio de documentos históricos e imagens simbólicas, e dessa forma propõe à massa entender o passado contextualizando-o no presente. O impacto com opinião de gente muito crítica. “O jornalismo cultural brasileiro é medíocre, mal feito, formado por um bolo de compadres e que não desperta curiosidade”, assim descreveu o escritor e jornalista Juremir Machado, autor do livro A miséria do jornalismo brasileiro. Para Juremir o jornalismo brasileiro é marcado pelo regionalismo e ausência de subjetividade que o torna mecânico e burocrático, e o texto jornalístico é uma dramatização da história em que a mídia constrói um herói.
Um passeio pela fotojornalismo. História e evolução da trajetória no Brasil, de quando o instantâneo ainda não era possível e sim planejado. Problemas sociais tratados por autores famosos como Paulo César Boni e Lewis Hine em fotodocumentarismo para causar impacto na sociedade. O renomado fotógrafo Sebastião Salgado também foi lembrado em seu trabalho intitulado Gênesis, documentário que propõe uma reflexão social quanto à preocupante situação atual do meio ambiente. “Ou você salva o que está sendo fotografado ou a raça humana poderá ser a próxima extinta”.
Uma menina elétrica com crise da escrita compulsiva encantada com conhecimentos que jorravam em um curto espaço de tempo. Era assim que me sentia. As horas passavam rápido demais. Não havia tempo suficiente para tomar um fôlego. Mas tinha mais, muito mais. A cada segundo uma surpresa. E essa foi a melhor de todas. O diretor editorial da revista Imprensa, da qual sou assinante, Rodrigo Manzano estava ali, ministrando uma oficina sobre revista. Não tinha como participar, só o Anton teve essa sorte. Fiquei loca e já no fim da tarde percorri toda a faculdade na esperança de poder encontrá-lo. Sem sucesso e desanimada, pois jamais teria outra oportunidade para conhecê-lo pessoalmente.
Durante o dia congresso. À noite balada. Foram assim os seis dias na capital potiguá. Taverna Pub – um castelo que esconde uma boate com ornamentos medievais, Sancho Pub, Galo do Alto – um barzinho aconchegante a meia luz onde servem umas batatas fritas deliciosas. Ou melhor, em Natal por todo canto tem batata frita. Até mesmo no ponto de ônibus elas substituem as ultrapassadas pipocas. Foi no Galo do Alto que eu e Bruna descobrimos que nascemos no mesmo dia, 23 de dezembro. Na verdade essas casas de shows se concentravam na mesma avenida chamada de Holly Day, o point da diversão. Quando soubemos desse título automaticamente começamos a cantar um dos sucessos de Madonna. À noite todos os congressistas se encontravam por lá. Descobertas, experiências agradáveis, amizades, fotos, mancadas, muitas mancadas, festas, insônia, muita energia e coincidências. Essa foi a melhor parte. Foi na manhã de sexta na praia que ocorreu um dos episódios que certamente não sairá por tão cedo da minha memória. De repente aparece do nada e passa à nossa frente, nada mais que Rodrigo Manzano. Aquilo foi incrível. Anton fez a ponte entre nós. Apesar da alta temperatura, ali mesmo debaixo daquele sol escaldante foi muito prazeroso conversar por um instante sobre o novo formato da revista Imprensa lançado naquele mês em virtude da passagem de seus 20 anos. Pronto. Estava satisfeita! Ao final dessa aventura, mesmo sendo dolorosa a despedida e como diz os versos da canção que tocava no taxi no caminho de volta à rodoviária no domingo, 07, I have to go now. Que adaptamos para Natal, I have to go now.

Por Ana Lúcia Souza em 10 de setembro de 2008
Foto: Anton Roos

Medalha de prata


Uma das boas lembranças que guarda da faculdade são as aventuras que você se sente na obrigação de fazer para testar sua coragem ou até mesmo para dar uma alavancada na sua vidinha monótona. Ainda mais quando se esses momentos coincidem justamente em pleno período de interdisciplinar, um daqueles trabalhos finais do semestre, quando os seus miolos fervem, a pouca paciência fica ainda mais escassa e só você pode tomar as rédeas da situação. Foi assim que acordei no dia 28 de agosto de 2008. O dia que eu precisava provar para mim mesmo o que ainda parecia insegurança. Mais uma vez a companheira de aventura era Jackeline Bispo. Se bem que nessa situação ela mais se caracterizava como a vítima da história. Pobre Jackeline!

Tudo aconteceu porque naquela manhã precisávamos ir à faculdade, em Barreiras para buscar o cinegrafista e todos os equipamentos de forma segura. Afinal essa era uma das principais exigências da faculdade quando se tratava de deslocamento de material. O nosso objetivo era realizar um trabalho de reportagem da disciplina de telejornalismo que teria que ser feito em São Desidério. Os locais foram estrategicamente escolhidos por nós. No jardim da praça Juarez de Souza, em frente à lotérica, na avenida Dr. Valério de Brito e em frente ao fórum, que concentravam grande movimento. Era a oportunidade para que nos vissem empenhados naquela atividade jornalística, que até então era desconhecida para muitos conterrâneos. De última hora todo o planejamento que fizemos foi por alto. Pegamos um moto taxi e fomos até a casa de meu irmão onde estava o carro modelo fiesta cor vinho, proprietário do veículo.

Eram mais de 08h30min. O nosso motorista não pode nos acompanhar, estávamos atrasadas e eu para variar desesperada. Não havia mais tempo para pensar. Mas me foi dada uma carta branca. Entramos no carro. Quem aprende nunca esquece, não é mesmo. Penei para sair da garagem. Afinal a ré nunca foi o meu forte. Meu pai uma vez me falou que para frente eu dirijo bem. Até que consegui sair. A Jacky ficou logo desesperada. Pensou na possibilidade de chamar outra pessoa para dirigir. Neste instante eu parei o carro e segurei firme os ombros dela saculejando-os. Falei do quando aquela era a oportunidade perfeita para eu treinar mais um pouco e perder o medo da direção, afinal não poderia haver melhor momento para unir o útil ao agradável, nesse caso ao perigo, pois se tratava de um percurso que na minha humilde experiência de direção considerava longa distância e sem a presença de outro motorista. Já havia dois anos que tinha habilitação e meu pai nunca foi assim permissivo com o seu carro. Alguns dizem que ele não é louco.

Enquanto abastecíamos antes de sair da cidade, minha perna tremia bastante a ponto de provocar uma arrancada no acelerador. Daí então a nobre colega atendendo um pedido meu colocou a música Man!I feel like a woman de Shania Twain bem alto que me fez relaxar. Saimos a toda velocidade rumo à Barreiras. As pernas foram se acalmando. Daí pude perceber como estava um dia lindo de sol e como aquela música elétrica combinava com o momento de avanço em minha vida. Nem eu mesmo acreditava.

Conseguimos chegar em paz à faculdade. Ao entrar no carro disfarçamos a situação para que o cinegrafista Carlão não percebesse. Mas foi inevitável e ele foi perguntando logo se tinha carteira. De volta a cidade somente ao chegar em frente casa minha mãe soube que era eu quem dirigia e não podia mais me impedir. Muitas pessoas viram o nosso desempenho na rua. Se bem que quando chegou minha vez de fazer a reportagem eu já havia esquecido o texto depois de tanta adrenalina. Trabalho pronto. Agora tinha que levar o cinegrafista de volta à faculdade. Tranqüilo. Rimos muito. Era 12 horas quando saímos de Barreiras para São Desidério mais uma vez. A quarta e última viagem da manhã. Agora somente eu e Jackeline. E quando finalmente tivemos aquela sensação de dever cumprido e até achamos estranho porque tudo havia dado certo demais, sentimos um cheiro de queimado. Opa! E de repente um motoqueiro mensageiro ultrapassa apontando para o carro. Ficamos a pensar o que seria. Um ladrão talvez? A alternativa foi descartada quando ao olhar no retrovisor percebi fumaça saindo do pneu traseiro. Aquilo foi o suficiente para encostar, sairmos do carro desesperadas e correr para longe, pois não sei porque o Carlão foi falar para a Jack que o motor desse modelo de carro costuma pegar fogo facilmente.

Debaixo daquele sol, sem água, sem a sombra de nenhuma árvore por perto, estávamos a poucos quilômetros de Baraúna. Nenhum carro parou porque esquecemos de fazer as devidas sinalizações. Ligamos para o dono do carro e ele providenciou socorro. A culpa foi de um freio de mão mal desengatado, por isso não completamos a última viagem e voltamos em outro carro. O uno de cor prata condizia exatamente a condecoração que fazia jus ao momento. Medalha de prata.

Por Ana Lúcia Souza em 28 de agosto de 2008
Foto: Jackeline Bispo

Storytelling (Carmine Gallo)

  "O storytelling não é algo que nós fazemos. O storytelling é o que somos". Concluída a leitura de 'Storytelling', de Car...