quarta-feira, dezembro 30, 2020

Retrospectiva literária 2020

 


E 2020 chega ao final após ter cumprido a meta literária estabelecida no início do ano, de realizar pelo menos duas leituras por mês. O Analítica registra neste post as 25 leituras realizadas:
Janeiro: Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez) e Adeus, Gana (Taiye Selasi);
Fevereiro: A Bibliotecária de Auschwitz (Antonio G. Iturbe) e Felicidade clandestina (Clarice Lispector);
Março: O segredo de Frida Kahlo (F. G. Haghenbeck) e Estação Atocha (Ben Lerner);
Abril: Um homem bom é difícil de encontrar (Flannery O'Connor) e Perto do coração selvagem (Clarice Lispector);
Maio: Ponto cardeal (Léonor de Récondo) e A hora da estrela (Clarice Lispector);
Junho: A terceira vida de Grange Copeland (Alice Walker) e Todos os nossos ontens (Natalia Ginzburg);
Julho: Sul da fronteira, oeste do sol (Haruki Murakami) e Os últimos sete meses de Anne Frank (Willy Lindwer);
Agosto: A cabana e A travessia do mesmo autor (Willian P. Young) e Afirma Pereira (Antonio Tabucchi);
Setembro: O menino do pijama listrado (John Boyne/Oliver Jeffers) e A síndrome de Aquiles (Mário Rosa);
Outubro: A culpa é das estrelas (John Green) e Tudo de bom vai acontecer (Sefi Atta);
Novembro: Minha vida de rata (Joyce Carol Oates) e O dia em que a poesia derrubou um ditador (Antonio Skármeta);
Dezembro: Alegrias da maternidade (Buchi Emecheta) e Moisés negro (Alain Mabanckou);

Tag Livros Experiências Literárias


Doze dos livros lidos são indicações da Tag Livros Experiências Literárias de 2020 na modalidade Curadoria, a qual o Analítica é associado desde o início do ano e um da edição de 2017. Trata-se de um clube de assinatura de livros que entrega em casa, mensalmente, uma caixinha com experiências literárias exclusivas para mais de mais de 60 mil assinantes em todo o país. 

Para mim tem sido uma experiência fantástica porque tem ajudado a intensificar, diversificar e dinamizar minhas leituras, além de poder participar e interagir em um grupo de leitores Tag Curadoria Barreiras, ao qual se reúne uma vez por mês para discutir as obras indicadas .  Que venha 2021 com mais experiências literárias!

Por Analítica





terça-feira, dezembro 29, 2020

Ler, plantar, cozinhar, pedalar

 

Nas horas que se tornam vazias
E o tempo parece não passar,
São como entretenimento, 
E fazem a cabeça parar de preocupar


Os melhores passa-tempos 
Tornaram-se hábitos do dia-a-dia
Coisas simples de se fazer
Sem qualquer compromisso, terapia


Ler o que se propõe, intensificar a leitura
Colocar no lugar dos personagens mais marcantes
Do tempo, lugares das histórias dos livros que li
E cristalizar na memória os que foi mais emocionante


Plantar, cuidar das plantas de casa, 
Dar mais atenção, cultivar mais flores
Elas enfeitam meu jardim
Dou-lhe nomes e elas dão mais vida, e mais cores


Cozinhar, testar novas receitas
Inventar, como se a receita fosse minha
Tentar, errar, criar, acertar o gosto
Experimentar novos sabores e divertir na cozinha



Pedalar, sair por aí, 
Sentir o vento bater no rosto, 
Contemplar lindas paisagens
E voltar satisfeita e feliz, sem nenhum desgosto

Enquanto tudo é registrado
E para que disso tudo lembraria
Que horas ruins também passam
E que tudo se ajeita um dia


Enquanto isso continuo a ler, plantar, cozinhar, pedalar 
Pois é preciso permitir, viver novos hábitos, 
Não preocupar tanto, pois tudo tem seu tempo
E a mudança vem de dentro

 

Por Analítica


quinta-feira, dezembro 17, 2020

Minhas lembranças das lapinhas da Vó Si



Nesse período em que se aproxima o Natal, as minhas melhores lembranças estão atreladas a figura da minha avó dona Si (in memorian). Cresci vendo-a montar a lapinha no dia 24 de dezembro, uma tradição que ela iniciou aos 13 anos e manteve  por mais de 70 anos. As rezas na lapinha aconteciam nos dias 24, após a missa do galo, e na tarde de 06 de janeiro, dia de Santo Reis. A lapinha era desmanchada em 07 de janeiro.

Enquanto ela mesma conseguiu montar a sua lapinha, costumava fazê-la no dia 24 de dezembro, obedecendo a uma promessa. Lembro de como ela costumava separar as plantas e enfeitá-las com adornos natalinos, do cheiro da cola feita de tapioca utilizada para colar o papel no velho caixote ornamentado para colocar os santos, da casa cheia, dos benditos entoados, das comidas servidas após a reza: o licor de jenipapo, da torta, da pêta, do ginete, do delicioso bolo de puba com milho que só ela sabia fazer. 

Com o tempo e devido às enfermidades ela já não conseguia ajudar na montagem, mas ficava por perto, observando, agoniada para ver o resultado final e dando seus pitacos: "Ô menina, cadê a boca da lapinha? Vocês não sabem fazer lapinha não. Deixa que eu faço.  Eu só vou colocar a mesa e os santos mesmo", declarava.

Nos anos seguintes ela até ficou mais calma e deixou que tomássemos conta de vez de tal tarefa, e sempre acaba aprovando. E como ela gostava de receber em sua casa as pessoas que iam visitar sua tradicional lapinha ou participar das rezas!




Aprendi com ela a valorizar esse costume e há seis anos faço a lapinha em minha casa. Este ano, utilizei os santos que eram da Vó como forma de homenagear sua memória, sua tradição. Não será mais o mesmo. A montagem da lapinha já não foi a mesma esse ano. Uma coisa que era tão fácil fazer a cada ano, neste foi tão difícil! São lembranças de memórias afetivas vividas intensamente e que jamais irei esquecer tudo o que esses momentos representam pra mim!Fica a saudade e o legado de uma tradição tão bonita!

Um pouco de história - Segundo a Igreja Católica, por volta do ano 1223, São Francisco, para explicar aos camponeses de uma cidade da Itália, teve a ideia de reproduzir o cenário do nascimento de Jesus utilizando a argila para representar as figuras que compõem o presépio natalino: Maria, São José, o menino Jesus, os Três Reis Magos, os pastores, a vaca, o burrinho e outros. A ideia teve grande repercussão e a partir do século XVIII repercutiu na Europa e por todo o mundo.  
  
Por Analítica



 



terça-feira, dezembro 15, 2020

Leituras de Dezembro: Alegrias da maternidade (Buchi Emecheta) e Moisés negro (Alain Mabanckou)


'Alegrias da maternidade' de Buchi Emecheta e 'Moisés negro' de Alain Mabanckou, são as duas últimas obras escolhidas para encerrar as leituras de 2020. Tratam-se de obras indicadas pela Tag Livros.

Alegrias da maternidade (Buchi Emecheta)


"...só agora com esse filho, vou começar a amar de verdade em tudo o que quero ser: mulher e mãe", página 75. Um livro emocionante que ganhei de presente no amigo oculto do grupo da Tag Curadoria Barreiras. Da autora Buchi Emecheta, 'Alegrias da maternidade'  obra publicada pela Tag livros em 2017, relata a história de Nnu Ego, filha de um grande líder africano tradicional Agbadi, que é enviada como esposa ainda aos 11 anos e tem como sonho ser mãe. 

Por uma questão cultural ela se torna a primeira esposa de Nnaife. A história se passa em Lagos, capital da Nigéria, em um cenário marcado por um contexto de guerra, racismo, desemprego, pobreza em que a mulher não tem vez. "Enquanto voltava para o quarto, ocorreu a Nnu Ego que ela era uma prisioneira: aprisionada pelo amor e por seus filhos, aprisionada em seu papel de esposa mais velha", página 194.

Pode-se dizer que a autora numa sacada meio que irônica, utiliza o título dado à obra para mostrar uma trajetória de vida e sofrimento que envolve a personagem principal. Nnu Ego teve que enfrentar a perda de três filhos, com muito esforço e com o pouco recurso que lhe rende o ofício de comerciante, trabalhou para criar os sete filhos sobreviventes para que tivessem um futuro de descente. O filho mais velho Oshia,  apesar de não reconhecer o esforço da mãe, consegue uma bolsa de estudos numa faculdade nos EUA e estuda para ser cientista. Enquanto isso, Nnu Ego teve que suportar o machismo e traições do marido e assumir também o papel de chefe da família provendo o sustento inclusive das outras esposas e seus filhos, quando Nnaife vai para a guerra e depois consequentemente é preso por tentativa de homicídio.

Não deixa de ser uma história de superação. No final, mesmo cansada das dificuldades para sobreviver e sustentar os filhos, Nnu Ego relembra com satisfação que as maiores alegrias de sua vida são os filhos e os desafios que teve que enfrentar para encaminhá-los na vida. "Mas é isso mesmo", respondeu Nnu Ego com os olhos cheios de lágrimas. "Não sei ser outra coisa na vida, só sei ser mãe. O que vou conversar com uma mulher que não tenha filhos? Tirar meus filhos de mim é como me tirar a vida que sempre conheci, a vida com a qual estou acostumada", página 313.

Moisés negro (Alain Mabanckou)


"Tudo começou nessa época em que, adolescente, eu me perguntava a respeito do sobrenome que Papai Moupelo, o padre do orfanato de Loango, tinha me dado: Tokumisa Nzambe po Mose yamoyindo abotami naboka ya Bakoko. Esse longo sobrenome significa, em lingala, 'Demos graças a Deus, o Moisés negro nasceu na terra dos ancestrais', página 09.  

É a última obra indicada pela Tg Livros Curadoria de 2020. De autoria de Alain Mabanckou, um dos autores mais renomados da contemporaneidade, 'Moisés negro' é um romance de ficção congolesa e a trajetória histórica da obra tem início na década de 1970, num orfanato da República do Congo. O enredo gira em torno do personagem central Moisés, que é deixado no orfanato pouco depois de nascer. 

Por Analítica

segunda-feira, novembro 09, 2020

Leituras de novembro: 'Minha vida de rata' e 'O dia em que a poesia derrotou um ditador'


"Uma verdade dolorosa sobre a vida familiar: as emoções mais tenras podem mudar em um instante. Você acha que seus pais amam você, mas será que amam você ou a criança que é deles?", página 21.

'Minha vida de rata', ficção americana de autoria da escritora Joyce Carol Oates, é a obra indicada pela Tag Livros Experiências Literárias no mês de outubro. Nessa leitura pude conhecer a história de Violet Rue, a caçula da família Kerrigan. A narrativa começa em novembro de 1991, quando Violet tem 12 anos e sete meses. "A família é um destino especial. A família em que você nasce e da qual não há escapatória", página 16.

As lembranças da infância e do relacionamento com os pais e os irmãos e da casa onde moravam até o final de sua infância, são frescas na memória de Violet. "Nós morávamos em uma casa de dois andares com estrutura de madeira no número 388 da rua Black Rock, em South Niagara", página 28. 

Estupro de Lisa Denver, uma garota com deficiência mental, ao qual os irmãos Jerome e Lionel Kerrigan estavam envolvidos é algo marcante na narrativa. Testemunhar os depoimentos dos irmãos na cozinha de sua casa, sobre o espancamento do garoto afrodescendente Hadrian Johnson,  (17), estudante de ensino médio e jogador do time de basquete da escola que viria a morrer dias depois, e o depoimento de Violet à enfermeira da escola é o fato norteador para a expulsão de sua própria casa aos 12 anos.  

"Rata vadia. Rata piranha. Dedo-duro. Vamos arrancar a porra da sua cabeça", página 116. "Violet como você pôde? Acabou com as nossas vidas. Seu pai nem consegue falar sobre isso. Não consegue falar sobre você. Enquanto conseguir ficar aqui melhor. Não tem lugar para você em casa", página 117. Primeiro ela mora em um abrigo, depois na casa da tia. "Meu coração está partido. Tolo, sentimental. Não morava com minha família, mas com parentes. Muito melhor do que num abrigo ou num centro de detenção para fugitivos", página 195.

Jerome e Lionel cumpriram pena na Unidade Prisional do Centro do Estado em Marcy, Nova York. "Estou indo atrás de você, rata. Rata, puta. Não vai conseguir se esconder", página 198.

Estudante universitária, trabalha como garçonete meio período e também faxineira. "Se a minha vida de rata acabar um dia, lembrarei daqueles anos da mesma maneira que se olha para um sonho febril, onde o protagonista do sonho está em estado contínuo de perseguição, desespero. Cumprindo minha pena. Sem condicional", página 259. 

Talvez o que Violet não imaginasse é que sendo rejeitada pela própria família por denunciar uma verdade que mudaria a reputação dos Kerrigan, viesse a passar por maus bocados. Longe do seio familiar, ela sofre assédio sexual e sente que sua vida é um grande risco. "Só estou correndo para salvar minha vida", página 314.

Após a morte do irmão mais velho Jerome Jr. na cadeia e do pai, e ter passado grandes dificuldades para se manter, o reencontro com Tyrell Jones, um conhecido do tempo de colegial surge como uma esperança. Com a saída do irmão mais novo após cumprir a pena ela, apesar de achar que ele irá atras dela para se vingar, mesmo assim, ingenuamente, correndo riscos, ela quer retornar a sua cidade natal e reencontrar a família. 

"No último vislumbre que eu tivera da mamãe ela estava se afastando de mim, no 'abrigo'. Drogada e de andar trôpego mas determinada a escapar de mim. Difícil evitar reconhecer o fato de que a minha mãe havia me abandonado. Transformou-me numa órfã. Por quê?", página 341.

Com todos os perigos que configura o reencontro com a família, já esperando a vingança de Lionel, mais uma vez ela consegue fugir. E mesmo que isso significa viver longe de sua família, ela, com 27 anos, escolhe sua liberdade, e entende que apesar da escolha feita e da perda que isso representa, a partir de agora ela poderá enfim ser feliz.  "Está feliz em entender que uma nuvem idêntica nunca virá de novo, não importa quão bela, quão única. Você chora pela sua perda", página 344.

Encontro das Taggers


Após oito meses realizando discussões literárias por meio da plataforma online, foi realizado na tarde de 25 de novembro um encontro para confraternização das participantes da Tag Curadoria Barreiras. 


O momento foi de descontração, discussão prévia sobre o livro Minha vida de rata, e também contou com a realização do amigo oculto de livros. 



Na oportunidade presenteei as taggers com exemplares de 'Um rio de histórias', o qual divido autoria com as colegas Jackeline Bispo e Luciana Roque.


O dia em que a poesia derrotou um ditador (Antonio Skármeta)



A segunda leitura realizada neste mês, trata-se do livro selecionado para novembro da Tag Livros Experiências Literárias. De autoria de Antonio Skármeta, 'O dia em que a poesia derrotou um ditador', é uma obra de ficção chilena que narra a história da prisão de um professor de filosofia em Santiago no final da década de 1980, quando o país vivia um período de ditadura e as prisões eram bem comuns. 

O então ditador Augusto Pinochet anuncia um plebiscito em que a população deve votar contra ou a favor da continuidade de seu governo. Esse enredo irá envolver a narrativa de Nico, filho do professor Paredes e os desafios da campanha do 'Não', realizada pelo renomado publicitário Adrián Bettini, que com muita ousadia, poesia e alegria irá dar vida a reconstruir uma nova página política. "Há maneiras e maneiras de calar. Há maneiras de dizer calando. Ás vezes a única maneira de dizer é calar o que todos entendemos que deveria ter dito".

A escrita de Antonio Skármeta é bem simples, os capítulos são curtos e eu adorei a obra. A leitura foi bem tranquila e agradável e que apesar das várias facetas de um sistema político opressor, mostrou que com criatividade e carisma de uma ideia bem construída que configurou uma campanha bem feita que pôde alcançar a aprovação da maioria e vencer um plebiscito revertendo a história política de um país. 

"Agora é a vez de vocês. O importante é que, se ganharem o governo, vocês façam algo para acabar com esta coisa tão antipática de estigmatizar as pessoas, entre as que votaram "Sim" e as que votaram "Não". É preciso ser moderno e se sentar em cima das diferenças".


Texto e fotos: Analítica

segunda-feira, outubro 26, 2020

Tudo de bom vai acontecer (Sefi Atta)


"Ela era minha amiga mais antiga, minha melhor amiga. Havíamos nos afastado em certa época, e às vezes a amizade parecia inconstante, como ocorre com quase todas as irmãs, e ela foi mais perto que eu cheguei de ter uma irmã nesse lugar onde as famílias não cansavam de se expandir", página 232. De autoria de Sefi Atta, 'Tudo de bom vai acontecer' é uma obra que segue a linha de temáticas africanas selecionadas pela @Tag Livros Experiências Literárias. O livro conta a história de Enitan, uma garota nigeriana de classe média que mora com os pais e sua amizade com Sheri, que tem a mesma idade. A narrativa é dividida em três períodos (1971, 1985 e 1995) e situa o leitor no tempo. 

A princípio o enredo se passa na cidade de Lagos, marcado pelas memórias de infância de Enitan e o seu primeiro contato com a amiga Sheri Bakare. O pai de Enitan é advogado e a mãe, do lar, que após perder o filho aos três anos, tornou-se oprimida pelo marido, recorre à religião. "Eu já estava começando a ficar entediada de tanto esperar quando duas semanas antes do fim das férias tudo mudou. Era o terceiro domingo de setembro de 1971", página 15. Não se trata de uma amizade aprovada pela mãe de Enitan, mesmo assim a garota faz de tudo para ver a amiga, nem que seja escondido na casa dos Bakare, aos domingos, quando sua mãe está na igreja. "A semana toda fiquei ansiosa para ir a casa de Sheri. As vezes passava pela aleia de hibiscos esperando que ela aparecesse", página 29. 

Sheri é muçulmana, filha de Alhaji Bakare que tem duas esposas. "Nossa casa só tinha um andar e era coberta de alamandas amarelas e buganviles. A dos Bakare era uma casa enorme de um andar, com venezianas de vidro azul claro, tão quadradona que aos meus olhos parecia um castelo", página 30. A amizade entre as duas garotas irá permear ao longo da narrativa. "Sheri havia me guiado até o limite entre o consentimento dos pais e a desaprovação deles", página 49.


"Chegamos a nossa casa e eu andei até o quintal dos fundos, junto à cerca onde cresciam os hibiscos", página 78. O contexto histórico que fundamenta o enredo é atribuído à Guerra Civil de Biafra, que mesmo tendo seu fim em 1970 tem seus reflexos e sempre é citada na narrativa. Enitan escuta atenta as conversas sobre a guerra entre os familiares, embora não estivesse interessada, nesse momento, em reformas políticas do país. Sem perder os laços com a amiga Sheri, Enitan frequenta o colégio Royal College, mas sempre se corresponde com Sheri por cartas. Com personalidade mais reservada que a amiga, Enitan , ela a acha avançada demais, diferente e atrevida. Um dos momentos mais marcantes da narrativa, sem dúvida, é quando Enitan presencia o estupro da amiga.  

Na segunda fase do livro, a jovem Enitan mora em Londres onde cursa direito na universidade. Seus pais se separam e ao terminar a faculdade retorna à Nigéria cheia de esperança. Outro fato que marca esse período é seu reencontro com a velha amiga Sheri. "Sheri ganhou peso ao longo dos anos. (...) Mas perdera quase toda a alegria da infância. Muitas vezes eu me lembrava da época em que ela ria até os hibiscos caírem do seu penteado afro, o que ainda me fazia chorar de rir", página 232.


Na terceira e última parte, Enitan, uma mulher mais madura, trabalha no escritório do pai. No reencontro com Sheri, ela descobre que a amiga agora tem uma casa e uma vida com luxos sustentada por um velho brigadeiro. Enitan incentiva a amiga a abrir um negócio próprio para alcançar sua liberdade financeira. Uma reviravolta marca a narrativa quando Enitan descobre o relacionamento extraconjugal do pai, a quem sempre admirou, e que ela tem um irmão. Ela sai da casa do pai e vai morar com a amiga Sheri. Enitan nessa fase se mostra mais interessada em se envolver com as causas políticas de seu país e conhece a jornalista Grace Ameh que a convida para lutar contra o atual regime militar. "Dizem que a democracia está à venda. Além do mais seus líderes são coagidos. Não podem nos ajudar se isso prejudicar seus eleitores. Teremos sempre que procurar nossas próprias soluções. Eu tenho fé na África um continente que pode produzir um Mandela. Tenho fé", página 353.

Quando Enitan conhece o marido Niyi e engravida, percebe que seu casamento não é o que ela esperava e vai de encontro a tudo o que ela protestou a vida toda, e resolve separar-se dele. Por meio da jornalista Grace, Enitan tem notícias do pai. "Dois meses depois tive notícias de meu pai. Ele esteve preso durante dez meses. Nosso país passava por um tumulto internacional por causa do enforcamento de nove ativistas ambientais do Delta Níger, incluindo o escritor Ken Saro-Wiwa. Nosso governo manteve-se irredutível", página 364. Enitan se separa de Niyi e volta a morar na casa que era de sua mãe. Quando o pai é solto e ela está a caminho de encontrá-lo, sente-se realmente liberta, feliz e com a expectativa de que 'Tudo de bom vai acontecer' a partir daquele momento. "Nada poderia tirar minha alegria. O sol me enviava sua benção. Meu suor me batizava", página 367.

O livro apresenta por meio da vivência da personagem de Enitan e de sua amiga Sheri, uma visão abrangente de como é crescer mulher na Nigéria. Narrada em primeira pessoa pela protagonista Enitan, que apesar  de pertencer a uma família de classe média e ter privilégios com relação à amiga Sheri, sua trajetória de 25 anos, marcada pelo machismo e formas de violência. Não deixa de ser uma história de superação, por mostrar que apesar do preconceito vivido por essas mulheres, elas mantém ideais de independência, mudança e conseguem realizar sonhos, frequentar uma faculdade e ir em busca de sua própria liberdade, como aconteceu com Enitan e Sheri.  

* Uma referência que a narrativa atribui em algumas passagens são citações voltadas às flores 'hibiscos' e 'alamandas', sempre presentes nas memórias de Enitan, seja na frente das casas ou para enfeitar os cabelos de sua amiga Sheri. Por isso utilizei as duas flores, que gosto muito e que tenho em casa para compor as fotos produzidas para essa postagem.

Texto e foto: Analítica

terça-feira, outubro 20, 2020

A culpa é das estrelas (John Green)

 


"Alguns infinitos são maiores que outros. Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Queria mais números do que provavelmente vou ter, e, por Deus queria mais números para o Augustus Waters do que os que ele teve. Mas Gus, meu amor, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito. Eu não trocaria por nada esse mundo. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados e sou muito grata por isso", página 182. 

"O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis". 'A culpa é das estrelas' de John Green, é um romance fictício que destaca a história de Hazel Grace (16) e Augustus Waters (17), o garoto por quem ela conhece no Grupo de Apoio a Crianças com Câncer. Dependente de um cilindro de oxigênio, a qual o chama carinhosamente de Felipe, Hazel tem tireoide com metástase nos pulmões e Gus osteossarcoma. Diagnosticados com câncer terminal, os dois jovens vão aproveitar o tempo que têm para viver intensamente uma história de amor. "Sem dor não poderíamos reconhecer o prazer".

Um dos pontos que o enredo destaca e que me atraiu muito na narrativa é o foco dado à leitura. Da discussão literária dos protagonistas sobre um livro 'Uma aflição imperial', nasce a ideia dos dois visitarem o autor dessa obra, Peter Van Houten, em Amsterdã, para saberem acerca de uma possível continuação da obra e que fim tiveram os personagens. 

Na viagem dos dois a Amsterdã, acompanhados da mãe de Hazel, o casal tem uma grande decepção no encontro com o tal escritor. Mas a viagem agrega outros momentos que são inesquecíveis para a relação de Hazel e Gus: o jantar regado a champanhe no restaurante Oranjee, a visita a casa/museu de Anne Frank onde acontece o primeiro beijo dos dois assistido e aplaudido por outros visitantes e a primeira transa deles no retorno ao hotel. "Estou apaixonado por você e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que  o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó", página 109.

De volta da viagem, o romance de Hazel e Gus terá seus últimos capítulos escritos e mesmo com pouco tempo, os dois vão aproveitar cada instante desse amor para torná-lo inesquecível. "As pessoas vão dizer que é triste o fato de ela deixar uma cicatriz menor, que menos pessoas se lembrem dela, que ela tenha sido muito amada mas não por muita gente. Mas isso não é triste, Van Houten. É triunfante. É heróico", páginas 218.

Já conhecia a história de Hazel e Gus por meio do filme, mas somente agora tive contato com a obra literária - muito embora sempre costumo fazer o contrário - e adquirir o livro. A obra se configura em uma narrativa recheada de detalhes em que John Green utiliza uma escrita bem simples para falar de um tema que se tornou comum, mas tratado de maneira alegre e tão emocionante, baseada na trajetória de vida de dois jovens e do pouco tempo que eles têm juntos para viver um grande amor. "Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, mas é possível escolher quem vai feri-lo. Eu aceito as minhas escolhas. Espero que a Hazel aceite as dela", página 219. 

  
Texto e foto: Analítica

Storytelling (Carmine Gallo)

  "O storytelling não é algo que nós fazemos. O storytelling é o que somos". Concluída a leitura de 'Storytelling', de Car...