sexta-feira, julho 19, 2019

A Casa do Penhasco (Agatha Christie)



Há algum tempo desejava ler uma obra de Agatha Christie. A Casa do Penhasco não era exatamente a primeira obra que gostaria de ler da autora. Comprei o livro junto com outro de Agatha, ‘Encontro com a morte’, que lerei posteriormente.
Publicado em 1932, A Casa do Penhasco tem como cenário a cidade litorânea de St. Loo, localizada no Sul da Inglaterra. O enredo envolve Hercule Poirot, um detetive às portas da aposentadoria, que acompanhado de seu amigo capitão Hastings, resolvem passar uma temporada em St. Loo, onde tomaram conhecimento de Nick Buckley, herdeira de uma fortuna e também da Casa do Penhasco, que é assim descrita. “Qualquer um poderia se esconder com toda a facilidade sem ser visto por ninguém. Vir da Casa do Penhasco pela estrada até o hotel seria muito demorado”, página 24. Ou ainda: “A casa em si era grande e um tanto sombria. Várias árvores a encobriam, com galhos que chegavam a bater no teto. Ela estava claramente em péssimo estado”, página 25.
Nick afirma estar correndo perigo de vida e deixa transparecer essa impressão ao relatar que já escapou de acidentes. Mas será que seriam esses meros acidentes? Em Poirot, Nick encontra certa confiança e ele tenta a proteger. “Minha linha de trabalho é diferente. Tenho que pensar no inocente, não no culpado. (...) É uma bela jovem, o sol continua brilhando, o mundo é um lugar agradável e ainda tem muito amor e vida pela frente”, página 38.
O assassinato de Maggie Buckley, prima de Nick altera os ânimos dos personagens e dá uma pincelada de suspense no enredo. “Estávamos a uns cem metros da casa e, bem na nossa frente, entre nós e a janela francesa ainda aberta, avistamos uma pessoa caída no chão, enrolada em um xale chinês vermelho...”, página 70.  JOVEM É ASSASSINADA DURANTE QUEIMA DE FOGOS. TRAGÉDIA MISTERIOSA ABALA ST. LOO”, página 92. Poirot faz uma lista de nomes com iniciais de A a J para estudar possíveis suspeitos. Ele tenta encorajar Nick o tempo todo. O detetive planeja também uma farsa da morte de Nick para reunir todos os suspeitos. “Coragem Mademoiselle. Sempre existirá algo pelo que vale a pena viver”, página 98.
A narrativa é relatada em primeira pessoa pelo capitão Hastings. São apresentados detalhes imprescindíveis que contribuíram para eu acreditar que Nick é a mocinha da história o tempo todo, fato sustentado pela autora até o desfecho surpreendente, quando é revelado por meio das investigações de Poirot que Nick na verdade, é a assassina de Maggie porque tinha inveja dela. No último capítulo a autora explica o passo a passo do enredo revelado sob a perspectiva das investigações do detetive Poirot. “– Voilà ! – disse ele. Eis a pessoa K! Foi mademoiselle Nick quem matou sua própria prima, Maggie Buckley”, página 180.
Gostei do estilo da autora, a obra apresenta uma narrativa bem amarrada com riqueza de detalhes, sem pontas soltas e a leitura não é cansativa, pois uma pitada de mistério está sempre sublinhado e a autora prende a atenção do leitor em cada capítulo.
A Casa do Penhasco, li e recomendo!

Título: A Casa do Penhasco
Autora: Agatha Christie
Gênero: Ficção Policial Inglesa
Editora: L&PM Editores

Páginas: 191

Por Analítica

terça-feira, julho 09, 2019

Conversando sobre Leitura, Escrita e o Gênero Crônica

Um bate-papo para mostrar que a Leitura e a escrita de crônicas podem se tornar hábitos prazerosos. Foi assim na manhã de segunda-feira 08 de julho, ao participar de um momento de sensibilização da '6ª Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o futuro', para estudantes de 8º e 9º ano do Anexo 2 (Escola Municipal  Presidente Castelo Branco) do Centro Educacional Patronos Integrados em São Desidério. 

Foram usados modelos de crônica publicados no blog Analítica e de autores da literatura nacional, para influenciar os estudantes que irão produzir crônicas a partir da temática 'O lugar onde vivo'. Confira alguns registros desse momento:










Por Analítica
Fotos: Analítica/Arquivo Anexo 2

sexta-feira, julho 05, 2019

Um olhar triste numa loja de instrumentos musicais


Numa tarde de abril de 2019, bastante entusiasmada com o início das aulas de violão, fui até uma loja de instrumentos musicais em Barreiras, distante 27 km de São Desidério, onde moro, para comprar meu próprio violão. Assim poderia aperfeiçoar os estudos em casa, como sugerido pelo professor de música. Diante de uma infinidade de marcas e modelos não sabia qual instrumento escolher ao certo. Um vendedor veio ao meu encontro me explicar.

De repente a imagem de uma pessoa que adentrava à loja, chamou minha atenção. Nessa hora não mais ouvia o que o vendedor explicava, apesar dele continuar falando. Minha atenção se voltou inteiramente para quem acabava de entra na loja. Minha memória insistia em recordar de alguém que parecia já ter conhecido. Outros vendedores gritaram um nome que parecia ser seu apelido e isso logo me levou a crer que realmente se tratava de quem eu imaginava. Tentando disfarçar e ao mesmo tempo olhando, a sua condição atual foi o que mais me impressionou. Seu braço esquerdo mutilado e enfaixado pouco abaixo do ombro parecia ter sido algum acontecimento recente. E eu continuava olhando para ele. Não para o braço, mas para ele, tentando imaginar o que teria acontecido de fato. Seu rosto estava triste e seu olhar aéreo. Percebendo que eu o olhava, adentrou à loja, onde me encontrava, e também me encarou ao passar por mim. Perguntei se lembrava de mim, pois havíamos estudado juntos há muito tempo atrás em São Desidério. Rapidamente, ele balançou a cabeça confirmando e sorriu ponderado indo se sentar aos fundos da loja onde esperavam outros vendedores amigos seus. Fiquei estática. Tentei não continuar olhando, mas meus olhos insistiam em olhar. Ainda por algumas vezes, sem querer, meus olhos correram em direção aos fundos da loja, onde ele se encontrava sentado. Seu semblante era triste e o olhar tão distante. Os vendedores tentavam puxar conversa e alegrá-lo.

Minutos depois, já no caixa, concluindo a minha compra, não pude resisti. Não poderia sair daquele lugar sem saber de fato o que teria acontecido ao meu ex-colega. Perguntei reservadamente ao vendedor que me atendeu. Percebendo a minha curiosidade ele disse que há alguns meses aquele jovem havia se envolvido em um trágico acidente em outra cidade, o qual teve outros veículos envolvidos e várias vítimas fatais, inclusive de uma mesma família. E por consequência, seu braço esquerdo foi quase totalmente amputado. Surpreendi-me com a resposta, pois me recordei naquele exato instante de qual acidente se tratava e da repercussão dada pela mídia na época. Respirei. Olhei mais uma vez para ele. Na hora de sair da loja, despedi ao longe mencionando seu nome. Ele olhou para mim e acenou friamente. Fui embora e pelo resto do dia a sua imagem não saia de minha cabeça. Naquela noite tive insônia e não parava de pensar nesse reencontro com aquele ex-colega, e de seu olhar triste e tão distante.

Por Analítica
Foto: Divulgação
  



quinta-feira, junho 27, 2019

Contação de histórias: A vaca fotógrafa


No dia 24 de maio fui convidada a contar a história 'A vaca fotógrafa' para a turminha do Maternal 2 da Escola da Terra em São Desidério. O livro paradidático foi trabalhado anteriormente pelas professoras da turma Ivanete e Noélia. 


Para esta Contação de história confeccionei uma câmera fotográfica utilizando E.V.A preto, papel carmen preto, papel alumínio, copo descartável, uma caixa pequena, fita adesiva, cola, tesoura e uma alça preta. As professoras me cederam um exemplar do livro e máscaras dos animais citados na história. 


Sentados no chão os alunos ouviram a historinha atenciosamente e participaram em vários momentos. Após a contação os pequenos puderam tocar a máquina fotográfica como forma de sanar a curiosidade. 


Portando a câmera e máscara utilizadas na contação, eles pousaram para fotos.



As professoras concluíram o momento confeccionando pequenas máquinas fotográficas utilizando caixas de fósforo que foram entregues as crianças.


Amei contar essa historinha! Obrigada Escola da Terra e tias Neth e Noélia!

Por: Analítica
Fotos: Analítica / Arquivo Escola da Terra

quarta-feira, junho 26, 2019

Saberes Ambientais do Cerrado (Professor Valney Dias)


‘Saberes Ambientais do Cerrado’ é a leitura escolhida desse mês. O livro foi idealizado por meio de um projeto denominado 'Veredas Vivas', desenvolvido a partir de 2008 na região de Ponte de Mateus, povoado do município de São Desidério pela Agência 10envolvimento, vinculada à Pastoral Social da Diocese de Barreiras, o propósito desse projeto era apresentar e valorizar o 'modo geraizeiro' de conviver no Cerrado. 

Os reflexos do Projeto Veredas Vivas atraíram os professores da UFOB, Valney e Mário Alberto a encabeçarem nessa mesma região o  Projeto Saberes Ambientais do Cerrado cujo objetivo era o "desenvolvimento de diálogos de saberes ambientais contextualizados com os modos de vida das comunidades geraizeiras nas áreas de Cerrado do Oeste Baiano", página 14.


Autor autografando a obra que ganhei da amiga Anna Cláudia Soares
A obra inicialmente faz um apanhado histórico e reporta à década de 1980, destacando registros do trabalho social do padre Gunter Gnadlinger, membro da Comissão Diocesana da Pastoral da Terra que se sensibilizou com os relatos de sofrimento dos geraizeiros da região de Ponte de Mateus, e o convívio com a pressão e cobiça dos grileiros. "Queremos ver as coisas do nosso modo. Estão grilando as nossas terras. O que me revolta é que medem o preço do Gerais em sacos de soja. Que seja pelo menos em sacos de pequi!", página 11.

Com o tempo as famílias foram incentivadas e se mantiveram firmes e resistentes na região, como se pode atestar nessa passagem do livro: "Uns geraizeiros da região de 'Ponte de Mateus', localizada num cerrado belíssimo na bacia do Rio Guará, deram uma resposta exemplar: firmaram um pacto entre si de não cederem às pressões dos grileiros. E conseguiram se impor, ao menos parcialmente. Não obstante, à vergonhosa realidade, a região de 'Ponte de Mateus' continua sendo alvo preferencial da cobiça de grileiros (um dos mais conhecidos é Marcos Valério, publicitário que orquestrou o escândalo dos 'Mensalões') e até nos dias atuais, muitas famílias persistem em sua jornada geraizeira na 'Ponte de Mateus' e redondezas", página 10. 


Professor Valney explica sobre a produção da obra
O livro foi publicado em 2016, contém 78 páginas e é dividido em quatro capítulos: 1 - Itinerários, desafios e resultados do projeto; 2 - As paisagens e os lugares no Vale do Baixo Rio Guará; 3 - Saberes e fazeres nas comunidades tradicionais da micro-bacia do Rio Guará e 4 - Exercícios e estudos dirigidos sobre saberes tradicionais ambientais e educação ambiental. "No passado, fiquei com vergonha quando me chamaram 'geraizera'. Hoje, tenho isto como maior orgulho, pois amo nosso Gerais", página 11.

A obra foi pensada para atender aos moradores que vivem na região que integra o Vale do Guará,  sendo resultado de um trabalho de pesquisa de dois anos e estudos desenvolvidos com estudantes e comunidade da Escola Municipal Ovídio Francelino de Souza localizada no povoado de Ponte de Mateus. Além de Ponte de Mateus, a região contempla também os povoados de Currais, Cera, Pedras, Larga, Riacho de Fogo, Vereda Grande e Contagem. "As paisagens do Cerrado no baixo vale do Rio Guará compõem o mundo dos seus moradores; comunidades tradicionais identificadas como povos geraizeiros. Seu modo de vida nos Gerais tem relação íntima com a flora e a fauna do Cerrado...com os rios, riachos e córregos que cortam as Veredas da região", página 36.

A narrativa explica acerca da metodologia utilizada pelos autores durante o processo de produção do livro, o relato das oficinas de cordel, de fotografia, das reuniões, o resgate e transcrição de lendas e depoimentos coletados a partir da observação dos costumes, da cultura local e do contato com os participantes e comunidades tradicionais geraizeiras. "A mãe que morreu. Ressuscitou no mesmo dia. Comeu muito buriti, arroz e carne. Depois disse: No futuro terá gafanhotos que vão dizimar o povo aqui tudo. E a noite do mesmo dia morreu definitivamente", página 20.


Ao final dos capítulos, o livro apresenta ainda questionamentos acerca da temática que reforçam a reflexão dos leitores. "Nestas reuniões foram estabelecidos, junto com a equipe pedagógica e os estudantes geraizeiros, os temas geradores: as paisagens e os lugares; os saberes e os fazeres por meio de brincadeiras, tradições e crenças, e os produtos da sociobiodiversidade, que orientam o desenvolvimento das metodologias com linguagens verbais e não verbais no espaço escolar e vivido pelas comunidades geraizeiras", página 21.

Em suma, a obra é super recomendada para quem quer conhecer acerca do Vale do Rio Guará pois exalta as riquezas do Cerrado presente no nosso município de São Desidério e das tradições e costumes das comunidades tradicionais geraizeiras. Li e recomendo! 


Participantes da primeira edição do Clube da Leitura Saberes Ambientais do Cerrado
Clube de Leitura da SEMATUR - A obra foi escolhida para nortear as discussões da primeira edição do Clube de Leitura Saberes Ambientais do Cerrado’, e dá nome ao projeto idealizado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMATUR), de São Desidério. O evento foi  realizado na tarde de 12 de junho na Lavanderia Cultural e teve como convidado o professor Valney Dias Rigonato, da Universidade Federal do Oeste Baiano (UFOB) , um dos responsáveis pela produção do livro, que conduziu a apresentação da obra aos participantes. 


Funcionários da Sematur, professor Valney e colaboradores do Clube da Leitura
Segue abaixo a poesia de autoria de Silvânia das Virgens de Jesus, moradora do Vale do Guará.

O Cerrado e o nosso país!


O Cerrado é importante

Isso eu posso te falar
Trabalhamos com muita força
Pra o Cerrado preservar
O país onde eu vivo
Existe muita beleza
O povo pode ser pobre
Mais o país é uma riqueza
O que mais me alegra,
é ter o Cerrado preservado.
Se não tivermos consciência
Tudo vai ser se acabando.
Se as árvores forem derrubadas,
onde os pássaros vão morar?
Onde vamos preservar?


Por Analítica




segunda-feira, junho 10, 2019

Centenário do ex-combatente da 2ª Guerra Mundial Eurypedes Pamplona


Hoje, 10 de junho de 2019, data do aniversário do centenário do barreirense e ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, Eurypedes Pamplona, relembro este momento em que ele visitou São Desidério para participar da 13ª edição do Clube da Leitura, projeto da Biblioteca Municipal Dom Ricardo Weberberger, realizada em 20 de agosto de 2015, em comemoração a passagem do Dia do Soldado, celebrado em 25 de agosto. 

Com presença de estudantes das escolas estaduais e particulares do município, o então 1º Tenente João Paulo Pinheiro, autor do livro 'Tiro, guerra e mito: a história de um barreirense na Segunda Guerra Mundial', obra em discussão no evento, relatou sobre a produção do livro e fatos da vida de seu protagonista, a infância, juventude, de quando foi convocado para servir à Força Expedicionária Brasileira e a Segunda Guerra Mundial, o retorno à Pátria e a família. Ao final os sócios leitores do clube homenagearam seu Eurypedes entregando uma placa de honra ao mérito.



Confira abaixo um texto sobre seu Eurypedes publicado pelo Analítica em 04 de maio de 2010.


Memórias de um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial

Nascido em Barreiras em 10 de junho de 1919, Eurypedes Lacerda Pamplona é filho de Manoel Messias Pamplona e Arlinda Lacerda Pamplona. Na infância o pai trabalhou como funcionário de uma empresa de Telégrafos para sustentar os sete filhos. Aos 19 anos, Eurypedes se alistou e teve a oportunidade de viajar de avião para o Rio de Janeiro onde morou por quatro anos. Com a criação do dia do reservista teve de apresentar seus documentos que foram apreendidos, de modo que não pôde sair da cidade até ser convocado para servir à guerra. Esse dia não tardou muito. Após o Brasil entrar na guerra em agosto de 1942, dois dias apos ele foi convocado. Certa noite quando chegava do cinema à pensão onde morava encontrou seus amigos que lhe esperavam tristes para anunciar sua convocação à guerra. “Naquele momento me faltou as pernas, quase caí, mas não tive escolha, não podia sair da cidade porque meus documentos estavam presos”, disse Eurypedes.
Os dois anos seguintes foram de intenso treinamento no 2º Regimento de Infantaria num campo utilizado por todas as forças armadas. Em meio ao treinamento pesado perdeu amigos e podia presumir que estava cada vez mais próxima uma realidade muito mais difícil e dias piores.
Em 1944 partiu para Itália a bordo do navio Meighs. Apesar de boas instalações, os enjôos eram inevitáveis. Depois de quinze longos dias desembarcaram em Nápoles. Os soldados se alojaram em uma espécie de depósito distante do Front onde eram identificados e organizados em companhias de 200 homens cada, sempre em exercício esperando chegar o grande momento. No Front os soldados estavam em combate todo o tempo. Quando morriam, mais soldados eram requisitados de cada companhia. Ao chegar sua hora, Eurypedes foi com fé e confiança. Por fazer parte da Divisão de Infantaria sua posição no Front era de ataque. Como metralhador contava com o auxílio de dois soldados municiadores.
Foram dez meses em combate. Além do perigo dos ataques, os soldados também tinham o frio como companhia. Alguns adoeciam e eram hospitalizados. “A neve chegava a quase um metro. As atividades eram interrompidas e iniciava-se o cessar fogo no Front. Somente os carros patrulha estavam em atividade e se cruzassem com o inimigo não restava ninguém vivo”, relembra Eurypedes. A tropa não tinha folga, apenas revezavam quando o capitão determinasse quem iria para a reta-guarda, assim os soldados tomavam banho, após oito dias mais ou menos. A miséria e o estado de calamidade vivenciada pelos italianos nesse período sensibilizavam os soldados que se solidarizavam distribuindo um pouco de seus alimentos a quem passava fome. O Natal deste ano para Eurypedes, certamente foi o mais triste de sua vida. Sozinho em um hospital de campanha em Livorno, abalado por uma bomba que caiu em um local próximo.
Quando os brasileiros não mais tinham esperança, a invasão do Monte Castelo foi um dos episódios que ficaram marcados para sempre na memória do ex-combatente. “Havia uma ponte de acesso que era destruída durante o dia pelo inimigo e reconstruída por nós à noite. Foi uma tomada muito difícil e muita gente morreu. Depois de três tentativas fracassadas a conquista foi um sonho para nós”, afirmou Pamplona.
Em meio ao caos, mais de dois mil soldados brasileiros e cerca de 65 milhões de pessoas ao todo morreram durante a guerra. As imagens estão presentes nos pesadelos do ex-combatente até hoje.
O fim da guerra em 30 de abril de 1945 foi a notícia mais esperada pelos soldados que festejaram com alegria e muita vontade de retornar à Pátria. Esse retorno não aconteceu de imediato por causa da logística. Durante os três meses na Itália após a guerra, Eurypedes teve a oportunidade de conhecer muitos lugares e dançar a tarantela.
O regresso foi organizado a cada cinco mil homens. O primeiro escalão chegou ao Brasil em 17 de setembro de 1945 recebido calorosamente pela população carioca na Baía de Guanabara. Foram homenageados e receberam medalhas de campanha. No Rio Eurypedes permaneceu por mais seis anos e já se considerava um carioca. Mas ainda assim sentia muita falta da família e retornou à sua cidade natal. Em Barreiras foi acolhido com muita festa e homenagens. Ao longo do tempo foi convidado para participar de eventos como desfiles cívicos e cerimônias no 4º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), além de entrevista à emissora de TV local e palestra em escolas da cidade. Em seus relatos, Eurypedes Pamplona diz não sentir orgulho de ter participado da guerra, mas por amar o exército conserva a ideia de que servi-lo é uma das melhores oportunidades para disciplinar uma pessoa.

Por: Analítica
Fotos: Acervo Biblioteca Municipal / Eurypedes Pamplona

sexta-feira, maio 31, 2019

1ª edição do Clube do Livro Analítica - Análise da obra 'O diário de Anne Frank'


Com o propósito de comemorar os nove anos do Blog Analítica, celebrado em 07 de abril, foi criado o 'Clube do Livro Analítica'. Na noite de 30 de maio, um grupo de amigos da cidade de São Desidério reuniu-se para discutir a obra literária 'O diário de Anne Frank', na primeira edição do clube que pretende incentivar o gosto pela leitura e promover encontros para potencializar obras literárias, por meio de leituras sugeridas ou não pela 'Dica de Leitura' do blog Analítica.

Uma noite calorosa marcada por intensos debates regados a vinho. As boas vindas, o objetivo do clube e apresentação do Blog, da resenha literária sobre a obra e a mediação ficou por conta da autora do blog Ana Lúcia Souza. A explanação inicial da obra por meio da exibição de um documentário que relata o depoimento de uma amiga que conviveu com Anne Frank foi apresentado por Anna Cláudia e aspectos do contexto sócio-histórico da Segunda Guerra Mundial foi explanado por Georghinton Diego. 

O momento mais aguardado da noite foi a partilha da leitura, no qual os presentes destacaram suas impressões acerca da obra. Sorteio de obras literárias, entrega de marcadores e uma 'dinâmica do diário' ainda incluíram a programação que foi encerrada com um lanche. 

Para o próximo encontro ficou definida a obra 'O extraordinário' em data a ser definida.

Confira fotos deste primeiro encontro. A resenha literária da Dica de leitura de janeiro: 'O diário de Anne Frank' também está disponibilizado abaixo:



















Resenha do livro 'O Diário de Anne Frank' postado no blog 

"Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda". Com essas palavras escritas em 12 de junho de 1942, Anne Frank assinala o início de suas memórias no seu diário que manteve até 1º de agosto de 1944.

Essa talvez não seja apenas mais uma entre tantas histórias que aconteceram no contexto do Nazismo e da guerra. Fundamentada em relatos de um diário de uma adolescente judia, com pensamentos à frente de seu tempo, e às vezes extremistas, ela viveu conflitos e experiências paralelas ao período da Segunda Guerra Mundial, fato em torno do qual a narrativa transcorre.

Anne inicia seus relatos a partir do momento em que ganha de presente de aniversário de 13 anos um diário, na data de 12 de junho. Ela o considera como uma amiga e passa a chamá-lo de Kitty. A princípio relata fatos do convívio com o pai Otto, a mãe Edit e a irmã Margot.

O enredo passa a ter outro direcionamento quando a irmã Margot recebe uma convocação da SS - Organização Paramilitar ligada ao Partido Nazista e a Adolf Hitler e a família então decide fugir para se esconder em um local chamado Anexo Secreto. "O esconderijo ficava no prédio do escritório de papai. É uma coisa meio difícil de ser entendida por gente de fora, por isso vou explicar. Papai não tinha muita gente trabalhando no escritório, só o Sr. Kugler, o Sr. Kleiman, Miep e uma datilógrafa de 23 anos chamada Bep Voskuijl, e todos estavam informados de nossa ida. O Sr. Voskuijl, pai de Bep, trabalha no armazém junto com dois assistentes, e nenhum deles ficou sabendo de nada", pág. 30.

Em outro parágrafo ela descreve o prédio onde passou a viver a família Frank e os Van Daan, e posteriormente também o médico Albert Dussel, totalizando oito pessoas que se enclausuraram naquele endereço chamado Prinsengracht, 263. "A porta à direita do patamar leva ao Anexo Secreto nos fundos da casa. Ninguém jamais suspeitaria da existência de tantos cômodos por trás daquela porta cinza e lisa", pág. 31.

Durante os relatos Anne descreve a relação de amizade e admiração com o pai, como afirma nesse trecho: "Papai é sempre tão bom! Ele me entende perfeitamente e eu gostaria que algum dia pudéssemos falar de coração para coração sem que eu caia instantaneamente no choro. Mas acho que isso tem a ver com minha idade. Eu gostaria de passar mais tempo escrevendo, mas isso provavelmente acabaria sendo chato", pág. 37. Ela comenta também o relacionamento com a mãe, com quem tinha frequentes desentendimentos e dizia gostar menos que o pai. "Apesar de todas as minhas teorias e meus esforços, sinto falta todo dia e toda hora de uma mãe que me compreendesse. É por isso que em tudo que faço e escrevo, imagino o tipo de mãe que eu gostaria de ser para meus filhos no futuro. O tipo de mãe que não leva a sério tudo que as pessoas dizem, mas que me leva a sério", pág. 148.

Em muitos momentos ela faz declarações do desejo de liberdade, como descrito nesse trecho: "Mas os sentimentos não podem ser ignorados, não importa que pareçam injustos ou ingratos. Gostaria de andar de bicicleta, dançar, assoviar, olhar o mundo, me sentir jovem e saber que sou livre, mas não posso deixar isso transparecer", pág. 148. Em outros, ela se mostra não ter mais esperança. "O fim da guerra ainda parecia tão distante, tão irreal como um conto de fadas. Se a guerra não terminar em setembro, não vou voltar à escola, já que não quero ficar dois anos atrasada", pág. 232.

A confusão de pensamentos também é presente nos relatos da autora. "Algumas vezes me pergunto se alguém algum dia entenderá o que estou dizendo, se alguém deixaria de lado a minha ingratidão e não se importaria se sou judia, e apenas me visse como uma adolescente que precisa demais de uma simples diversão. Não sei, e não poderia falar disso com ninguém, porque tenho certeza de que começaria a chorar", pág. 148.

As transformações do corpo, a descoberta do amor e sexualidade, e as frustrações são declaradas pela adolescente. Em relatos registrados na data de terça-feira, 07 de março de 1944, Anne faz uma retrospectiva de 1942 e 1943, deixando transparecer amadurecimentos vividos pela protagonista da história além de questionamentos sobre valores. "Riqueza, prestígio, tudo pode ser perdido. A felicidade em seu coração pode ser diminuída, mas estará sempre lá, enquanto você viver, para torná-lo feliz de novo", pág. 186.

Anne situa o leitor apresentando detalhes a exemplo da situação alimentar no Anexo Secreto. "...vou dar uma descrição detalhada da situação alimentar, já que está se tornando uma situação difícil e importante, não somente aqui no Anexo mas em toda a Holanda, em toda a Europa e mesmo no resto do mundo....nos 21 meses em que vivemos aqui, passamos por muitos ciclos alimentares - num instante você entenderá o que isso significa. Um ciclo alimentar é o período em que só temos um prato específico ou um tipo de verdura para comer. Durante longo tempo só tivemos endívias. Endívia assim, endívia assado, endívia com purê de batatas, caçarola de endívia com purê de batatas. Depois espinafre, seguido por couve-rábano, salsão, pepinos, tomates, chucrute e por aí vai", pág. 231.

A ideia de escrever apenas para si mudou quando em 1944 ela soube que o governo holandês  anunciou que após a guerra recolheria relatos do sofrimento dos holandeses influenciados pela ocupação alemã, e isso incluiria cartas e diários. A partir disso, a adolescente, que tinha o desejo de ser jornalista e escritora, começou a organizar os inscritos e nutrir o desejo de publicar um livro baseado em seu diário, como ela mesma afirma nessa passagem:

"Há muito tempo você sabe que meu maior desejo é ser jornalista, e mais tarde uma escritora famosa. Teremos de esperar para ver se essas grandes ilusões (ou desilusões) irão se cumprir, mas até agora não sinto falta de assunto. De qualquer modo, depois da guerra eu gostaria de publicar um livro chamado O Anexo Secreto. Resta ver se conseguirei, mas meu diário pode servir de base", pág 273.

Como não havia muito o que fazer no Anexo, escrever era um de seus entretenimentos e o desejo de se tornar conhecida através da escrita manteve suas esperanças até a última página de seu diário, acreditando que poderia fazer uma coisa não somente por si, mas também pelos outras. "A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso; eu sempre reclamava de não conseguir desenhar, mas agora me sinto felicíssima por saber escrever.  E se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever para mim mesma. Mas quero conseguir mais do que isso...não quero que a minha vida tenha sido em vão, como a da maioria das pessoas. Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte!E é por isso que agradeço tanto a Deus por ter me dado este dom, que posso usar para me desenvolver  para exprimir tudo que existe dentro de mim!", pág. 233.

O último registro do diário de Anne data de 1º de agosto de 1944, três dias antes das oito pessoas que se encontravam no Anexo Secreto serem presas por um sargento da SS e membros holandeses da Polícia de Segurança.

Sem um final feliz e apesar do sonho de se tornar famosa não ter sido desfrutado em vida por Anne Frank, a  publicação de suas memórias imortalizou sua obra e tornou sua história conhecida por leitores no mundo inteiro.

Li e recomendo!!

Por Analítica


Storytelling (Carmine Gallo)

  "O storytelling não é algo que nós fazemos. O storytelling é o que somos". Concluída a leitura de 'Storytelling', de Car...