terça-feira, junho 30, 2020

Todos os nossos ontens (Natália Ginzburg)


"O pai sempre dissera que era preciso derrubar os fascistas, que ele teria sido o primeiro a escalar as barricadas no dia da revolução. Dizia que seria o dia mais lindo de sua vida. Mas sua vida passara sem aquele dia. Anna imaginava que era ela agora que estava nas barricadas com Ippólito e Danilo, atirando com o fuzil e cantando". 

Lembranças, histórias, gravidez indesejada, tentativa de aborto, suicídio, guerra e conflitos familiares marcam o livro escolhido para encerrar as leituras de junho do Analítica. Optei pela sexta obra da Tag Experiências Literárias modalidade Curadoria, uma ficção italiana escrita pela autora Natália Ginzburg em 1952. 'Todos os nossos ontens', não poderia ser o título mais sugestivo para o livro. Narrado em terceira pessoa, predomina a narrativa de Anna, suas lembranças e histórias que têm por cenário a região do Norte da Itália.

O livro tem 327 páginas e divide-se em duas partes, que envolve a personagem Anna e seus irmãos, Ippólito, Concettina e Giustino que são criados pela governanta, a senhora Maria. O pai deles escreve um livro de memórias intitulado 'Nada além da verdade' que critica o Facismo, regimo político da época. "O pai ria e esfregava as mãos pensando que o rei e Mussoline não sabiam de nada, e em uma pequena cidade da Itália um homem escrevia páginas tremendas sobre eles", páginas 16 e 17. 


Também são mostrados os laços da família protagonista com os personagens da família vizinha, composta por Emanuelle, Amália e Giuma, integrantes de uma família industrial rica, dona da fábrica de sabão. Outros dois personagens também são importantes na narrativa, Cenzo Rena um senhor culto, antifascista e que luta em favor dos camponeses e o judeu Franz que se casa com Amália. 

Anna é uma garota que se veste com vestidos feitos de pano de cortina, muito sonhadora e que queria fazer revolução. Ela vive um relacionamento amoroso com Giuma e uma gravidez indesejada a deixa desesperada. Abandonada por Giuma e decidida a fazer um aborto, ela desiste da ideia após receber uma proposta de casamento de Cenzo Rena, que é bem mais velho que ela e está disposto a ajudá-la. "Perguntou-lhe se queria se casar com ele. Assim não precisaria jogar a criança fora. As ruas estavam cheias de crianças e podia até ser que se tornassem homens de cara dura e má, mas mesmo assim achava triste que se pudesse jogar fora assim uma criança", página 163.

A Segunda Guerra Mundial, ascensão e declínio do Fascismo perpassam o enredo e fundamenta as discussões e ações narradas sob as perspectivas dos personagens.  "...barbeava-se muito raramente desde que os alemães entraram na França. (...) teria imaginado realmente que faria a revolução com Emanuelle e Danilo, na Itália, na Alemanha, sabe-se lá que grandes revoluções tinham imaginado fazer", página 133. "Giustino às vezes pensava que gostaria de ir para a guerra, não teria ficado impressionado ao atirar onde todos atiravam, era sempre melhor do que ficar em casa com a senhora Maria...", página 171.

Outro momento de destaque na narrativa é o trecho que assinala o suicídio do jovem Ippólito para fugir da guerra, pois ele temia que os alemães invadissem a França. "Entrando no jardim público viram ao redor de um banco um grupinho de pessoas e dois policiais, então se puseram a correr. No banco estava Ippólito sentado morto, e ao seu lado no chão o revólver do pai", página 145. Esse episódio é marcante para o atual momento de Anna. "Pensava que ela não tinha pai nem mãe, e tinha encontrado o irmão morto em um banco de jardim e tinha uma criança dentro dela", página 157.  



O casamento de Anna com Cenzo Rena foi fundamental para a sua proteção e da criança. Até o último momento Cenzo Rena planejou que ela e a criança saíssem da cidadezinha de Borgo San Costanzo e fossem para um lugar mais seguro, distante da guerra. Ele já previa o risco que corriam ajudando o judeu Franz a se esconder dos alemães. A perseguição e morte desses dois personagens é outro momento de destaque no enredo. "Em seguida foram levados para a praça da Prefeitura e Franz foi jogado contra o muro e deu-se ordem para atirar e Cenzo Rena cobriu o rosto com as mãos. E ele também foi jogado contra o muro e ouviu o barulho da sua cabeça no muro e sinos e vozes. E assim morreram Cenzo Rena e Franz", página 304.

A narrativa também destaca os ideais de luta e de resistência ao Fascismo. "Giustino continuava no Norte e soubera que fazia parte dos resistentes e se chamava Balestra. E Danilo estivera um pouco em Roma e depois seguira para o Norte, havia saltado de um avião de paraquedas e como resistente se chamava Dan", página 310.

No final do livro a escritora frisa sobre as angústias dos personagens que sobrevivem e questionamentos acerca do futuro incerto trazidos agora pelo clima do período de pós-guerra. "E riram um pouco e eram muito amigos os três juntos, Anna, Emanuele e Giustino, e estavam muito contentes de serem eles três os que estavam pensando em todos aqueles que tinham morrido, e na longa guerra e na dor e nos clamores e na longa vida difícil que tinham agora pela frente e que estava repleta de coisas que não sabiam fazer", página 320.

A linguagem da autora é simples e as ideias são bem traçadas no decorrer dos capítulos. Gostei do livro porque apesar de ser ficção, as histórias dos personagens são atreladas a um contexto histórico de guerra que a autora tão bem expõe através das memórias e sentimentos e de todo um lado triste que é predominante quando se fala em guerra, além também da mensagem de resistência e de luta antifascista que é passada e encorpada pelos personagens, sendo muita dessas histórias baseadas em fatos vividos pela própria autora. 

Palavras-chave: Passado - Memórias - Histórias - Guerra - Antifascismo - Resistência - Luta - Perdas;

Texto e fotos: Analítica

terça-feira, junho 16, 2020

'A terceira vida de Grange Copeland' (Alice Walker)


A terceira vida de Grange Copeland' é o quinto livro da Tag Curadoria, da qual sou assinante. Uma obra emocionante que aborda temáticas atuais e que despertam reflexões. Racismo, violência doméstica, abandono de incapaz, machismo, alcoolismo, traição norteiam a trama escrita por Alice Walker. O livro foi escrito entre 1966 e 1969 e tem como cenário o sul dos Estados Unidos e a rotina de uma família negra liderada por Grange Copeland. 

Oprimido pelo cenário racista da época ele desenvolve ódio por pessoas brancas. Ele vive com a esposa Margaret a quem a maltrata, e o filho Brownfield, uma criança que cresce na companhia de seus traumas: o alcoolismo do pai, a violência contra a mãe e o racismo. O pai os abandona à própria sorte, para ir em busca de mudança no Norte dos EUA. Nesse intervalo de tempo, o filho cresce, e sua mãe morre. Brownfield então com 16 anos parte sem rumo e chega a um lugar, onde por ironia do destino, trata-se do bar Dew Drop Inn, de propriedade da amante de seu pai, uma mulher madura chamada Josie. Ele tem um relacionamento com ela e com a filha simultaneamente. Mas é com a filha de criação de Josie, chamada Mem, uma garota estudada e totalmente diferente da sua realidade, que Brown se casa e tem três filhas: Daphne, Orneth e Ruth. 

O tempo passa e Brown repete os mesmos erros de seu pai. Ele bate em sua esposa embriagado, assim como via seu pai bater em sua mãe, e ele sente na pele os reflexos do racismo e de uma vida sem perspectivas. Um dos momentos mais emocionantes é quando ele mata a esposa na frente das filhas maiores Daphne e Orneth, é preso e condenado a 10 anos de prisão.

Grange Copeland, que já retornou do Norte se vê na condição de cuidar de Ruth. Josie vende o bar e compra uma fazenda para ele. As filhas maiores Daphne e Orneth vão embora com o pai de Mem. Ruth só passa a entender a raiva do avô por brancos quando ela mesma foi vítima do racismo da professora e dos colegas em sala de aula. "Ruth não conseguia entender a aversão que Grange sentia aos brancos. Mem a deixava brincar com as crianças brancas e, agora, na casa do avô, havia umas maravilhosas, pensava Ruth, no fim da rua. Brincar com elas, porém, estava estritamente proibido", página 191. Josie é a única que visita Brownfield na prisão. Enquanto isso o pai Grange desenvolve uma relação de muita cumplicidade e afeto com a neta Ruth, a quem Brown quer de volta, só para desafiar o pai. Quando Brown é solto, ele vai viver com Josie e o pai passa  a viver só na fazenda com a neta.

Outro momento de destaque da narrativa ocorre no capítulo 45, marcado pelo encontro inesperado entre avô e neta e Brown e Josie. O pai tem a chance de dizer umas verdades ao filho, mas percebe que ele não mudou com as oportunidades que a vida lhe deu. "Eu acolhi essa menina quando ocê a transformou ela numa órfã. Ocê matou a mãe dela. Onde ocê estava esses anos todo, quando ela precisava de um pai? Sumiu! Ocê sumia até quando vivia embaixo do mesmo teto que ela, só que se enfiava na garrafa de uísque. E aí foi pro xilindró por matar a única coisa decente que já teve na vida", página 265.

Pai e filho vão ao tribunal para disputar a guarda de Ruth. O avô a quer de qualquer jeito, mesmo porque já definiu um futuro para a neta. Ele lhe entrega uma economias para que ela vá à faculdade. "(...) tentei fazer as paz, e ele não deixou. E foi ele que largou essa menina. Agora não vai pegar ela de volta, não me importa o que fazer", página 266. 

Mas para a tristeza de Grange, ele acaba perdendo a guarda da neta. Inconformado com a perda, o próprio pai tira a vida do filho. Avô e neta fogem para a fazenda e são perseguidos. Essa é outra cena importante e que reafirma o compromisso do  avô com a neta e dos seus melhores desejos para ela. No meio da floresta durante a perseguição, ele é atingido por um tiro e tenta disfarçar para que a neta não veja, não sofra.  "Ele levara um tiro e sentia o sangue se espalhar por baixo da camisa. Não queria que Ruth visse. Fora isso não estava com medo. (...) - Ah, seu pobre coitado, seu pobre coitado - murmurou ele finalmente desolado, mas também pelo som de uma voz humana, inclinando-se sobre o chão e depois jogando-se para trás, se ninando nos próprios braços para o sono final", página 311.

Partilho a ideia de que a terceira vida de Grange Copeland a qual a autora se refere no título do livro, seja a da neta Ruth, até mesmo como forma de que o avô tem na pessoa da neta sua própria tentativa para reavaliar os seus atos do passado e de se redimir dos seus erros. Por meio dos cuidados, da cumplicidade e da amizade que ele desenvolve com a neta, lhe ensinando lições e também cuidando para que ela tenha um futuro melhor que o dele e do que o pai dela teve. Já Brownfield teve a oportunidade, talvez melhor que o pai, de ter uma esposa com mais perspectivas do que ele, que lhe ensinou a ler e escrever, teve três filhas com ela e possibilidade para crescer na vida, mas não percebeu a(s) oportunidade(s) para se corrigir. "... não dei nenhuma orientação para ele, nem na cabeça dele, amor. Mas quando ele virou  homem com oportunidade de consertar meus erro e ser bom para as filha, teve a chance de virar um homem de verdade, um pai também", página 266.

Eu gostei muito desse livro porque traz grandes lições. São temáticas atuais, a escrita da autora é simples e ela utiliza embasamentos fortes para tratar essas temáticas que são tão peculiares no dia a dia de milhares de famílias. E também pelo fato de que a autora busca para o personagem do pai e do filho, uma segunda chance para assumir suas falhas e de corrigir seus erros, embora apenas o pai tenha aproveitado essa segunda chance para que servisse de exemplo e legado para a sua terceira geração, no caso sua neta Ruth.    

Texto e foto: Analítica

sexta-feira, maio 29, 2020

A hora da estrela (Clarice Lispector)


"Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável". Como segunda leitura para concluir este mês de maio, escolhi a obra 'A hora da estrela', de Clarice Lispector. Este livro marca meu primeiro contato com a obra da autora, realizado em fevereiro de 2017. E agora, optei por fazer esta releitura para deixar registrada aqui no Analítica.

É comum na narrativa da autora algumas intervenções, como exemplo, pode-se ver nesse trecho. "Nesses últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer (...) E agora emerjo e sinto falta de Macabéa. Continuemos". E ainda, a autora faz indagações ao leitor como para despertar sua reflexão de mundo: "Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo - como a morte parece dizer sobre a vida - porque preciso registrar os fatos antecedentes".

O enredo gira em torno da personagem central Macabéa, que recebeu esse nome em homenagem a Nossa Senhora da Boa Morte. Sem pai e mãe desde cedo, a jovem alagoana foi criada por uma tia moralista no Rio. Após a morte da tia ela passa a dividir um quarto com algumas moças e  trabalha como datilógrafa. Ouvir a Rádio Relógio é um de seus passa-tempo e seu sonho é um dia se tornar uma estrela de televisão. O namorado Olímpico, que trabalha como metalúrgico, a troca por sua amiga, Glória. 

Tão simples, tão ingênua, a jovem Macabéa vive sem cuidados uma vida miserável em que comia pedaços de papel para saciar a fome. Ao descobrir que tem tuberculose e até mesmo sem se dar conta da gravidade da doença, é aconselhada pela amiga Glória a ir em uma cartomante para saber a sua sorte. A madame Carlota prevê um futuro emocionante para a garota, no qual ela iria se casar com um gringo muito rico. O enredo termina com uma tragédia em que a jovem é atropelada por um carro de luxo, logo em frente a calçada da cartomante, e ali mesmo morre sem receber nenhum socorro de quem assiste.

Por quê sempre escolho ler Clarice? Ora, porque é sempre tão leve, uma leitura agradável para esse momento de tantas incertezas, de dúvidas em que o mundo está tenso por uma pandemia. Faz parte da escrita da autora a tentativa de desvendar a essência humana e o modo simples de ver as coisas, as pessoas e o mundo. Nos faz também buscar, dentro de nós mesmos uma reflexão acerca do que estamos fazendo de bom nesse mundo e para os outros.

"(...) Que ninguém se engane, só conheço a simplicidade através de muito trabalho".  

Texto: Analítica

terça-feira, maio 12, 2020

Ponto Cardeal (Léonor de Récondor)


"Não sou mais o da minha carteira de identidade, e Lauren ainda não existe oficialmente. Se eu não me defino, posso dizer, de fato, quem eu sou? Meu corpo se transforma tão devagar. Devagar demais para poder dar uma resposta objetiva a Quem sou eu?", página 168. 

Um personagem em busca da liberdade de viver outra identidade. O romance francês de Léonor de Récondor, publicado em 2017 relata a história de Laurent Duthillac. Casado com Solange há cerca de 20 anos, eles tem dois filhos, Thomas de 16 anos e Claire de 13. Longe da família, Laurent se traveste de Mathilda para ir a boate Zanzibar com as amigas. 

"Faz 20 anos. Nada de sexual no início, mas uma amizade evidente", página 19. Laurent trabalha em uma empresa e é fascinado pela forma como as mulheres se vestem e se maquiam. "Ele olha o salto alto de Estelle e sua maquiagem bem feita". 

A leitura é tranquila e o livro traz capítulos pequenos, que é algo que gosto muito. A escrita da autora é clara. Logo no primeiro capítulo quando a escritora vai desmontando o personagem de Matilda, dentro do carro no estacionamento da boate, e vai reconstruindo Laurent, criou certa expectativa acerca de um tema tão debatido nos dias atuais que é a transexualidade. 

Só que no decorrer da narrativa, e a forma rasa abordada em cada capítulo deixa a desejar para uma temática tão abrangente. Os conflitos apontados pela autora, quais sejam a relação de Laurent com a esposa, os filhos, no ambiente de trabalho e na vizinhança são contornados de maneira fácil e rápida.   

Laurent mantém uma boa relação com os filhos, inclusive faz questão de levar o filho Thomas ao futebol, assim como seu pai fazia com ele, apesar de não gostar do esporte. "Na família, o futebol se impunha como a apoteose da masculinidade, e a brutalidade dos sentimentos que aquele esporte implicava, o magoava profundamente", páginas 25 e 26. 

Para a esposa Solange, Laurent representa um porto seguro, pois ela não tem amigos e além do trabalho ela cuida da família e da casa. Para ela foi um choque muito  grande descobrir que o marido é uma mulher trans. Outro momento marcante é a revelação aos filhos, feita durante o jantar pelo próprio Laurent. O filho Thomas se rebela e Claire fica mais incrédula que furiosa. 

Durante a terapia com o psiquiatra, ele é encaminhado ao endocrinologista que lhe orienta a tomar hormônios femininos. Quando começa a perceber os reflexos das mudanças em seu corpo ele resolve mudar o guarda roupa e vai trabalhar pela primeira vez vestido como uma mulher. O romance não aborda a relação de Laurent com outros homens ou mulheres, mas mostra que a sua satisfação é assumir seu lado feminino, se vestir, se maquiar, usar salto alto,de peruca, de observar como as mulheres se vestem e se arrumam. Essa mudança radical surpreende a todos em seu ambiente de trabalho, na escola dos filhos e na vizinhança. 

No desenrolar do enredo, Solange passa a pagar alguém para ser seu amante. Não se tem um retorno de que Laurent conseguiu reatar com o filho Thomas, que foi para um internato por opção própria e Claire continua apoiando o pai. Laurent resolve enterrar para sempre Mathilda e fazer a cirurgia para mudar de sexo enquanto aguarda oficialmente nova identidade, onde agora passa a se chamar Lauren. 

"E o hoje é apenas uma espera, uma passagem. Tornar-se mulher não desloca o objeto de meu desejo. Também não o substitui (...) todos os dias eu tomo meus hormônios, já liguei para o consultório do cirurgião na Bélgica", página 167. "(...) Lauren os vê tão claramente, nas ondas, no jardim, sob o sol, na chuva, cada dia único e mutante, cada dia que passa com Mathilda, Cynthia, com todas as outras do Zanzi. Lauren em plena luz", página 172. 



Texto e foto: Analítica
  

terça-feira, abril 28, 2020

Perto do coração selvagem (Clarice Lispector)


"E de instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em cavernas de  luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se dorme", página 192.

Escolhi 'Perto do coração selvagem', de Clarice Lispector, uma leitura leve para encerrar esse conturbado mês de abril. Como já havia falado em outra postagem anterior, o Analítica partilhará algumas leituras de Clarice em homenagem ao ano do centenário dessa que foi uma das maiores escritoras do século XX.

Escrito em meados dos anos 40, esse romance assinala a estreia de Clarice como escritora. A narrativa não tem uma sequência cronológica e a obra é dividida em duas partes. "...se tinha alguma dor e se enquanto doía ela olhava os ponteiros do relógio, via então que os minutos contados no relógio iam passando e a dor continuava doendo", página 16.

A trama gira em torno da personagem central, Joana, que depois que fica órfã, rejeitada pela tia, vai morar em um internato, onde se apaixona por um professor. Casa-se com Otávio, fica grávida e não vive bem essa gravidez, pois descobre que o marido tem uma amante que se chama Lívia que também está grávida. Com o tempo ela se separa de Otávio, conhece outro homem e embarca em uma viagem. 

Típico do estilo de Clarice, é um romance que oferece uma leitura agradável e a narrativa não é cansativa. Gosto da escrita da autora, a sensibilidade literária e de como ela concentra a importância de valores e as relações familiares mostrando com certa complexidade o perfil dos personagens, nesse caso específico, a protagonista Joana e sua busca pelo autoconhecimento, seus problemas, conflitos, medos, dúvidas, alegrias, o seu  convívio conturbado ao mesmo tempo em que realiza descobertas.

Entre os capítulos que mais gostei destaco o último que tem por título 'A viagem', por apresentar a desilusão de Joana que sai sem destino em busca de respostas na tentativa de desvendar o seu próprio eu.   

"Ah Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta-me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte sem medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo", página 202.

Texto e foto: Por Analítica







sexta-feira, abril 24, 2020

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias (Flannery O'Connor)


Demorei mas consegui concluí a leitura de 'Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias', de autoria da escritora Flannery  O'Connor. Esse é um dos livros que conheci por meio da assinatura da Tag Livros Curadoria, uma experiência a qual aderi no início do ano com o propósito de diversificar minhas leituras e conhecer novos autores. É interessante que por meio dessa assinatura também pude conhecer e interagir com outros assinantes da Tag e partilhar as impressões acerca dos livros lidos nos encontros do grupo, no caso socializo com o grupo Tag Curadoria Barreiras. 

As histórias tem por cenário a região sul dos Estados Unidos e o livro é divido em 10 contos. A autora possui uma linguagem de fácil entendimento e as narrativas são marcadas pelo simbolismo religioso em que a religião é colocada também como forma para criticar as atitudes e valores de alguns personagens. Também estão presentes discussões envolvendo relações familiares e em certos momentos a abordagem de questões racistas. 

Dos 10  contos, três me chamaram a atenção por apresentarem histórias mais envolventes. São eles, o primeiro conto, que recebeu o mesmo título do livro 'Um homem bom é difícil de encontrar',  ao  qual relata a história de uma família que durante uma viagem de carro sofre um acidente e que por azar recebem ajuda de um prisioneiro foragido, o mesmo que irá tirar a vida de toda a família. "Não dona, não sou bom, não. (...) Mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs", página 42.

O segundo conto que mais gostei tem como tema 'A vida que você salva pode ser a sua' e se baseia um pouco na própria história de vida da autora ou do que se sabe sobre ela. A narrativa assinala acerca de como interesses pessoais muitas vezes ultrapassam os interesses coletivos. E nesse conto destaca-se até que ponto uma senhora, convencida facilmente pelo discurso de um forasteiro, por interesses pessoais ou sabe se lá quais tenham sido, ela vê nisso uma oportunidade para vender a própria filha que tinha limitações de saúde. E neste conto mais uma vez Flanerry deixa a tona um final surpreendente. "Para certos homens", disse então lentamente, "há certas coisas que valem mais do que o dinheiro", página 77. "Dirija com atenção. A vida que você salva pode ser a sua!", página 86.

E o terceiro conto que destaco é 'Gente boa da roça' em que a contradição abordada pela autora na narrativa está bastante implícita. Um vendedor de bíblias que tenta convencer uma senhora com seu discurso. Essa senhora tem uma filha cética, doutora em filosofia, que acredita piamente na ciência e que apresenta uma deficiência física e que por esse motivo utiliza uma perna de pau. Uma reviravolta no final da história surpreende o leitor e acredita-se que a autora nesse conto fez uma crítica àqueles que de certa forma, abusam da boa vontade das pessoas para enganá-las.

A Literatura Gótica norteia o estilo da autora. Geralmente esse não é o tipo de estilo que me atrai, pois não me identifico muito, se eu puder escolher, nunca escolho obras desse estilo, não sei explicar o por quê. Mas de certa forma gostei do livro e me chamou a atenção o jeito surpreendente como a autora colocou as histórias e como em cada conto ela sempre reservava um final surpreendente e chocante.

Texto e foto: Analítica   



Adeus à Vó Si: minhas memórias






Avó é como segunda mãe. São muitas as lembranças que tenho da Vó Si. A única avó que conheci. Na sua humildade, Sizaltina Dourado de Santana, ou Dona Si, como era carinhosamente conhecida, foi exemplo de mulher guerreira, alegre, acolhedora, bondosa, sábia. Não era difícil lhe arrancar um sorriso e logo se contagiar com sua gargalhada. Com ela, a resposta era rápida, mas sempre nos envolvia com seu jeito meigo, atencioso, dedicado, de quem sempre queria ajeitar a todos. 


Foi boa companheira, mãe, avó, bisavó, irmã, tia, amiga, comadre, vizinha, costureira, bordadeira e muito religiosa. Foi casada com Jose de Santana, conhecido por Zé Magro (falecido em 2010), com quem compartilhou 60 anos de vida matrimonial. Teve cinco filhos, 16 netos e 15 bisnetos. Lembro-me de quando ainda pequena costumava ir brincar na casa da vó com minhas primas. Da merenda que ela preparava pra gente, do quintal cheio de plantas que ela cuidava com tanto zelo. Do pé de manga onde costumávamos subir e aprontar algumas estripulias, temendo que a vó descobrisse.


Além de costureira, ofício que praticou por muito tempo na velha máquina de costura encostada na copa da cozinha, Vó era uma bordadeira de primeira. Ela sempre dizia que aprendeu a bordar ponto cruz quando tinha 12 anos. Um legado que não guardou apenas pra si. Na década de 1990, juntamente com outras mulheres da comunidade, foi voluntária num antigo Projeto da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, ensinando muitas pessoas a bordar ponto cruz. Já em casa, tínhamos como mestra uma das mais exímias bordadeiras de São Desidério. Uma arte que foi passada para as netas. As primeiras aulas eram reservadas a pequenos pedaços de pano que aos poucos eram preenchidos, e os desenhos ganhavam formatos de laranjas, maçãs, peras, quadrados, losangos. Paciente para ensinar, ela exigia que o avesso do bordado fosse limpo. Só depois disso é que estávamos preparadas para fazer bordados em guardanapos, panos de pratos e posteriormente bordar nomes em toalhas de banho, fase que já assinalava progresso. 

Àquelas que se dedicaram mais, alçaram desafios maiores. Bordados em almofadas, caminhos de mesa, jogos de cozinha, entre outros. Mas talvez o sonho das netas seria dominar bordados mais difíceis, como as enormes toalhas de mesa, denominadas de 'toalhas de banquete' que a vó tanto fazia e que lhe eram exigidos meses de trabalho e dedicação. Uma das características de seu bordado é que o fazia com amor e capricho, motivos que a fazia receber muitas encomendas de outras cidades e até mesmo de outros estados. O bordado sempre deu o tom da ornamentação na casa da vó, seja por sobre o fogão, da mesa da sala, da antiga prateleira da cozinha, no aparador do filtro, nas almofadas, nos guardanapos da estante.



E como esquecer a devoção por Santo Reis e as lapinhas de Natal, de vê-la montar o presépio. Na primeira sala da casa, no dia 24 de dezembro os sofás davam lugar a lapinha. Ainda sinto o cheiro da cola feita da tapioca que ela fazia a seu modo para fixar o papel madeira rosa no antigo caixote de madeira e que posteriormente era preenchido com as plantas, a areia, palha, os santos e muitas luzes. Mas o ‘Menino Deus’, como ela chamava, só era colocado na lapinha à meia noite. Com o passar dos anos, assumimos de vez a função de montar a lapinha para ajudar a Vó. Das primeiras vezes ela ficava muito nervosa porque ainda não dominávamos os traquejos do tal ofício e assim ela questionava: 

- Ô menina cadê a boca da lapinha? Vocês não sabem fazer lapinha não. Deixa que eu faço, eu só vou colocar o santo mesmo!

A ‘boca da lapinha’ que ela se referia tratava-se de um formato triangular, seja por meio de plantas ou do próprio papel que ao final se configurava em uma gruta, deixando transparecer uma entrada com destaque para onde se apresentam os santos. Nos anos seguintes ela até ficou mais calma e deixou que tomássemos conta de vez da tarefa, mas sempre dando seus ‘pitacos’ de longe. Na verdade ela sempre dizia que todo ano só ia colocar o santo mesmo. Quando terminava a montagem ela sempre aprovava o resultado final:

- Mas ficou linda minha lapinha! Admirava.


As rezas na lapinha ocorriam no dia 24 à noite, depois da missa do Galo e no dia 06 de janeiro, dia de Santo Reis, após meio dia. A tradição da lapinha de Natal ela sempre dizia ter iniciado ainda menina, quando começou a fazer a lapinha por brincadeira. Depois fez uma promessa que foi cumprida por mais de 70 anos. E como ela gostava de receber as rezadeiras em sua casa e de cantar os benditos ‘Chegai Jesus, chegai’, ‘Viva o santo Nascimento’, ‘Noite Feliz’, ‘Dizei nos pastores’, ‘Viva Menino Deus’, do ‘Adeus minha lapinha cercada de flor’, e de tantos outros.





Dias antes da lapinha, era feita toda uma preparação. Uma delas, se tratava de fazer os biscoitos, a pêta e o ginete e os bolos. No fundo da casa da Vó havia um forno à lenha. No dia de fazer os biscoitos, o forno era aceso pela manhã, logo cedo e durante todo o dia era um grande movimento. A vizinhança logo percebia que na casa da Si era dia de fazer biscoito. Primeiro eram feitos as pêtas. Lembro de pegar a peta já assada e quente e molhar na massa crua que ficava no tacho de alumínio. Depois era a vez de reunir as netas e quem mais estivesse presente para ajudar a fazer o ginete, um biscoito doce. Esse era um dos momentos mais esperados. Sentadas em uma roda, cada uma com sua devida fôrma – que geralmente eram latas de sardinha vazias furadas ao centro e pontas picotadas para baixo – o bolo de massa era pressionado e ganhava formato de ‘S’ e aos poucos preenchia as bandejas no colo. Quando a Vó saia de perto, essa era a oportunidade para saborear rapidamente a deliciosa massa crua. E quando ela retornava lá estávamos com as bochechas alteradas tentando disfarçar os bolos de massa. E era nos repreendia: 

- Por isso que o ginete não rende aqui! E riamos.

Ao fim da tarde, após assar os ginetes, quando o forno já não estava tão quente, era hora de assar os bolos de milho e de puba. Outro preparativo para a lapinha era a batida de jenipapo. A Vó ia na Fazenda Amaralina, onde morava sua cunhada e comadre Bia para apanhar os jenipapos. Fazia as batidas e as reservava em frascos vazios de refrigerantes na geladeira para servir na noite de 24. A gente sempre tomava escondido da Vó quando íamos rezar à noite na lapinha no intervalo entre os dias 24 e 06.




A religiosidade era uma de suas marcas. Católica fervorosa e dizimista, sempre teve muita devoção pelo Divino Espírito Santo e por Nossa Senhora Aparecida, festejos tradicionais da cidade que ela acompanhava desde a infância. Enquanto pode, nunca faltava uma missa e sempre frequentava as rezas do Ofício de Nossa Senhora na Igreja Matriz, nas noites de sábado. A oração do ‘Pranto de Nossa Senhora’ ela nunca esquecia de rezar na Sexta-feira da Paixão. Foi com ela que comecei a ir à igreja quando ainda era pequena. Sua caminhada de fé foi um exemplo para seus familiares. Lembro de vê-la rezar o terço e com ela aprendi a rezá-lo também.

Em julho de 2016, após uma queda em casa, ela fraturou o fêmur direito e esteve hospitalizada. Nas noites em que estava com ela no hospital, sempre pedia para rezarmos o terço que ficava em seu leito. A sua força permitiu vencer três pneumonias nesse período e ela retornou para sua casa, embora com a difícil tarefa de conviver com as limitações físicas mas feliz por reencontrar parentes e amigos que sempre iam visita-la e tomar um café. Em maio de 2018 foi novamente hospitalizada com pneumonia, e mais uma vez conseguiu se recuperar mostrando sua força. Nesse período de pandemia, as circunstâncias do momento exigiam mais cuidado. Foi preciso uma mudança provisória de lar. Embora não estivesse em seu cantinho, tudo o que foi feito, foi com muito carinho, pensando em sua saúde, seu bem estar, sua segurança. Após mais uma internação ela não resistiu à pneumonia e nos deixou em 16 de abril, aos 89 anos.




As imagens dos últimos momentos ao seu lado, no leito, rezando o terço pra senhora ficar boa, de passar a mão por sua cabecinha branquinha, de segurar a sua mão cada vez que a senhora chamava, de cantar ‘Cura Senhor onde dói’ e outras canções que a senhora gostava para te acalmar e na esperança de te ver melhor, para voltar logo para casa. Mas prefiro ficar com as lembranças dos momentos felizes. Das oportunidades de te dar banho, de botar na cama para dormir, de cortar o seu cabelo escondido, do seu cheirinho, de suas risadas, de aprontar algumas brincadeiras para tirar fotos só pra te ver sorrir, dos desenhos que a senhora gostava de pintar, das leituras em voz alta, de passar para te ver, para pedir a ‘bença’ e saber como estava, de sentar no batente da porta da rua em sua companhia tomando café, dos teus conselhos, suas histórias, ensinamentos, sua alegria, sua fé! Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de ter uma avó tão maravilhosa. Ficam os bons exemplos e muita, muita saudade!







Texto e fotos: Ana Lúcia Souza



Storytelling (Carmine Gallo)

  "O storytelling não é algo que nós fazemos. O storytelling é o que somos". Concluída a leitura de 'Storytelling', de Car...