terça-feira, abril 28, 2020

Perto do coração selvagem (Clarice Lispector)


"E de instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em cavernas de  luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se dorme", página 192.

Escolhi 'Perto do coração selvagem', de Clarice Lispector, uma leitura leve para encerrar esse conturbado mês de abril. Como já havia falado em outra postagem anterior, o Analítica partilhará algumas leituras de Clarice em homenagem ao ano do centenário dessa que foi uma das maiores escritoras do século XX.

Escrito em meados dos anos 40, esse romance assinala a estreia de Clarice como escritora. A narrativa não tem uma sequência cronológica e a obra é dividida em duas partes. "...se tinha alguma dor e se enquanto doía ela olhava os ponteiros do relógio, via então que os minutos contados no relógio iam passando e a dor continuava doendo", página 16.

A trama gira em torno da personagem central, Joana, que depois que fica órfã, rejeitada pela tia, vai morar em um internato, onde se apaixona por um professor. Casa-se com Otávio, fica grávida e não vive bem essa gravidez, pois descobre que o marido tem uma amante que se chama Lívia que também está grávida. Com o tempo ela se separa de Otávio, conhece outro homem e embarca em uma viagem. 

Típico do estilo de Clarice, é um romance que oferece uma leitura agradável e a narrativa não é cansativa. Gosto da escrita da autora, a sensibilidade literária e de como ela concentra a importância de valores e as relações familiares mostrando com certa complexidade o perfil dos personagens, nesse caso específico, a protagonista Joana e sua busca pelo autoconhecimento, seus problemas, conflitos, medos, dúvidas, alegrias, o seu  convívio conturbado ao mesmo tempo em que realiza descobertas.

Entre os capítulos que mais gostei destaco o último que tem por título 'A viagem', por apresentar a desilusão de Joana que sai sem destino em busca de respostas na tentativa de desvendar o seu próprio eu.   

"Ah Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta-me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte sem medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo", página 202.

Texto e foto: Por Analítica







sexta-feira, abril 24, 2020

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias (Flannery O'Connor)


Demorei mas consegui concluí a leitura de 'Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias', de autoria da escritora Flannery  O'Connor. Esse é um dos livros que conheci por meio da assinatura da Tag Livros Curadoria, uma experiência a qual aderi no início do ano com o propósito de diversificar minhas leituras e conhecer novos autores. É interessante que por meio dessa assinatura também pude conhecer e interagir com outros assinantes da Tag e partilhar as impressões acerca dos livros lidos nos encontros do grupo, no caso socializo com o grupo Tag Curadoria Barreiras. 

As histórias tem por cenário a região sul dos Estados Unidos e o livro é divido em 10 contos. A autora possui uma linguagem de fácil entendimento e as narrativas são marcadas pelo simbolismo religioso em que a religião é colocada também como forma para criticar as atitudes e valores de alguns personagens. Também estão presentes discussões envolvendo relações familiares e em certos momentos a abordagem de questões racistas. 

Dos 10  contos, três me chamaram a atenção por apresentarem histórias mais envolventes. São eles, o primeiro conto, que recebeu o mesmo título do livro 'Um homem bom é difícil de encontrar',  ao  qual relata a história de uma família que durante uma viagem de carro sofre um acidente e que por azar recebem ajuda de um prisioneiro foragido, o mesmo que irá tirar a vida de toda a família. "Não dona, não sou bom, não. (...) Mas também não sou o pior do mundo. Meu pai dizia que eu era de outra raça, diferente dos meus irmãos e irmãs", página 42.

O segundo conto que mais gostei tem como tema 'A vida que você salva pode ser a sua' e se baseia um pouco na própria história de vida da autora ou do que se sabe sobre ela. A narrativa assinala acerca de como interesses pessoais muitas vezes ultrapassam os interesses coletivos. E nesse conto destaca-se até que ponto uma senhora, convencida facilmente pelo discurso de um forasteiro, por interesses pessoais ou sabe se lá quais tenham sido, ela vê nisso uma oportunidade para vender a própria filha que tinha limitações de saúde. E neste conto mais uma vez Flanerry deixa a tona um final surpreendente. "Para certos homens", disse então lentamente, "há certas coisas que valem mais do que o dinheiro", página 77. "Dirija com atenção. A vida que você salva pode ser a sua!", página 86.

E o terceiro conto que destaco é 'Gente boa da roça' em que a contradição abordada pela autora na narrativa está bastante implícita. Um vendedor de bíblias que tenta convencer uma senhora com seu discurso. Essa senhora tem uma filha cética, doutora em filosofia, que acredita piamente na ciência e que apresenta uma deficiência física e que por esse motivo utiliza uma perna de pau. Uma reviravolta no final da história surpreende o leitor e acredita-se que a autora nesse conto fez uma crítica àqueles que de certa forma, abusam da boa vontade das pessoas para enganá-las.

A Literatura Gótica norteia o estilo da autora. Geralmente esse não é o tipo de estilo que me atrai, pois não me identifico muito, se eu puder escolher, nunca escolho obras desse estilo, não sei explicar o por quê. Mas de certa forma gostei do livro e me chamou a atenção o jeito surpreendente como a autora colocou as histórias e como em cada conto ela sempre reservava um final surpreendente e chocante.

Texto e foto: Analítica   



Adeus à Vó Si: minhas memórias






Avó é como segunda mãe. São muitas as lembranças que tenho da Vó Si. A única avó que conheci. Na sua humildade, Sizaltina Dourado de Santana, ou Dona Si, como era carinhosamente conhecida, foi exemplo de mulher guerreira, alegre, acolhedora, bondosa, sábia. Não era difícil lhe arrancar um sorriso e logo se contagiar com sua gargalhada. Com ela, a resposta era rápida, mas sempre nos envolvia com seu jeito meigo, atencioso, dedicado, de quem sempre queria ajeitar a todos. 


Foi boa companheira, mãe, avó, bisavó, irmã, tia, amiga, comadre, vizinha, costureira, bordadeira e muito religiosa. Foi casada com Jose de Santana, conhecido por Zé Magro (falecido em 2010), com quem compartilhou 60 anos de vida matrimonial. Teve cinco filhos, 16 netos e 15 bisnetos. Lembro-me de quando ainda pequena costumava ir brincar na casa da vó com minhas primas. Da merenda que ela preparava pra gente, do quintal cheio de plantas que ela cuidava com tanto zelo. Do pé de manga onde costumávamos subir e aprontar algumas estripulias, temendo que a vó descobrisse.


Além de costureira, ofício que praticou por muito tempo na velha máquina de costura encostada na copa da cozinha, Vó era uma bordadeira de primeira. Ela sempre dizia que aprendeu a bordar ponto cruz quando tinha 12 anos. Um legado que não guardou apenas pra si. Na década de 1990, juntamente com outras mulheres da comunidade, foi voluntária num antigo Projeto da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, ensinando muitas pessoas a bordar ponto cruz. Já em casa, tínhamos como mestra uma das mais exímias bordadeiras de São Desidério. Uma arte que foi passada para as netas. As primeiras aulas eram reservadas a pequenos pedaços de pano que aos poucos eram preenchidos, e os desenhos ganhavam formatos de laranjas, maçãs, peras, quadrados, losangos. Paciente para ensinar, ela exigia que o avesso do bordado fosse limpo. Só depois disso é que estávamos preparadas para fazer bordados em guardanapos, panos de pratos e posteriormente bordar nomes em toalhas de banho, fase que já assinalava progresso. 

Àquelas que se dedicaram mais, alçaram desafios maiores. Bordados em almofadas, caminhos de mesa, jogos de cozinha, entre outros. Mas talvez o sonho das netas seria dominar bordados mais difíceis, como as enormes toalhas de mesa, denominadas de 'toalhas de banquete' que a vó tanto fazia e que lhe eram exigidos meses de trabalho e dedicação. Uma das características de seu bordado é que o fazia com amor e capricho, motivos que a fazia receber muitas encomendas de outras cidades e até mesmo de outros estados. O bordado sempre deu o tom da ornamentação na casa da vó, seja por sobre o fogão, da mesa da sala, da antiga prateleira da cozinha, no aparador do filtro, nas almofadas, nos guardanapos da estante.



E como esquecer a devoção por Santo Reis e as lapinhas de Natal, de vê-la montar o presépio. Na primeira sala da casa, no dia 24 de dezembro os sofás davam lugar a lapinha. Ainda sinto o cheiro da cola feita da tapioca que ela fazia a seu modo para fixar o papel madeira rosa no antigo caixote de madeira e que posteriormente era preenchido com as plantas, a areia, palha, os santos e muitas luzes. Mas o ‘Menino Deus’, como ela chamava, só era colocado na lapinha à meia noite. Com o passar dos anos, assumimos de vez a função de montar a lapinha para ajudar a Vó. Das primeiras vezes ela ficava muito nervosa porque ainda não dominávamos os traquejos do tal ofício e assim ela questionava: 

- Ô menina cadê a boca da lapinha? Vocês não sabem fazer lapinha não. Deixa que eu faço, eu só vou colocar o santo mesmo!

A ‘boca da lapinha’ que ela se referia tratava-se de um formato triangular, seja por meio de plantas ou do próprio papel que ao final se configurava em uma gruta, deixando transparecer uma entrada com destaque para onde se apresentam os santos. Nos anos seguintes ela até ficou mais calma e deixou que tomássemos conta de vez da tarefa, mas sempre dando seus ‘pitacos’ de longe. Na verdade ela sempre dizia que todo ano só ia colocar o santo mesmo. Quando terminava a montagem ela sempre aprovava o resultado final:

- Mas ficou linda minha lapinha! Admirava.


As rezas na lapinha ocorriam no dia 24 à noite, depois da missa do Galo e no dia 06 de janeiro, dia de Santo Reis, após meio dia. A tradição da lapinha de Natal ela sempre dizia ter iniciado ainda menina, quando começou a fazer a lapinha por brincadeira. Depois fez uma promessa que foi cumprida por mais de 70 anos. E como ela gostava de receber as rezadeiras em sua casa e de cantar os benditos ‘Chegai Jesus, chegai’, ‘Viva o santo Nascimento’, ‘Noite Feliz’, ‘Dizei nos pastores’, ‘Viva Menino Deus’, do ‘Adeus minha lapinha cercada de flor’, e de tantos outros.





Dias antes da lapinha, era feita toda uma preparação. Uma delas, se tratava de fazer os biscoitos, a pêta e o ginete e os bolos. No fundo da casa da Vó havia um forno à lenha. No dia de fazer os biscoitos, o forno era aceso pela manhã, logo cedo e durante todo o dia era um grande movimento. A vizinhança logo percebia que na casa da Si era dia de fazer biscoito. Primeiro eram feitos as pêtas. Lembro de pegar a peta já assada e quente e molhar na massa crua que ficava no tacho de alumínio. Depois era a vez de reunir as netas e quem mais estivesse presente para ajudar a fazer o ginete, um biscoito doce. Esse era um dos momentos mais esperados. Sentadas em uma roda, cada uma com sua devida fôrma – que geralmente eram latas de sardinha vazias furadas ao centro e pontas picotadas para baixo – o bolo de massa era pressionado e ganhava formato de ‘S’ e aos poucos preenchia as bandejas no colo. Quando a Vó saia de perto, essa era a oportunidade para saborear rapidamente a deliciosa massa crua. E quando ela retornava lá estávamos com as bochechas alteradas tentando disfarçar os bolos de massa. E era nos repreendia: 

- Por isso que o ginete não rende aqui! E riamos.

Ao fim da tarde, após assar os ginetes, quando o forno já não estava tão quente, era hora de assar os bolos de milho e de puba. Outro preparativo para a lapinha era a batida de jenipapo. A Vó ia na Fazenda Amaralina, onde morava sua cunhada e comadre Bia para apanhar os jenipapos. Fazia as batidas e as reservava em frascos vazios de refrigerantes na geladeira para servir na noite de 24. A gente sempre tomava escondido da Vó quando íamos rezar à noite na lapinha no intervalo entre os dias 24 e 06.




A religiosidade era uma de suas marcas. Católica fervorosa e dizimista, sempre teve muita devoção pelo Divino Espírito Santo e por Nossa Senhora Aparecida, festejos tradicionais da cidade que ela acompanhava desde a infância. Enquanto pode, nunca faltava uma missa e sempre frequentava as rezas do Ofício de Nossa Senhora na Igreja Matriz, nas noites de sábado. A oração do ‘Pranto de Nossa Senhora’ ela nunca esquecia de rezar na Sexta-feira da Paixão. Foi com ela que comecei a ir à igreja quando ainda era pequena. Sua caminhada de fé foi um exemplo para seus familiares. Lembro de vê-la rezar o terço e com ela aprendi a rezá-lo também.

Em julho de 2016, após uma queda em casa, ela fraturou o fêmur direito e esteve hospitalizada. Nas noites em que estava com ela no hospital, sempre pedia para rezarmos o terço que ficava em seu leito. A sua força permitiu vencer três pneumonias nesse período e ela retornou para sua casa, embora com a difícil tarefa de conviver com as limitações físicas mas feliz por reencontrar parentes e amigos que sempre iam visita-la e tomar um café. Em maio de 2018 foi novamente hospitalizada com pneumonia, e mais uma vez conseguiu se recuperar mostrando sua força. Nesse período de pandemia, as circunstâncias do momento exigiam mais cuidado. Foi preciso uma mudança provisória de lar. Embora não estivesse em seu cantinho, tudo o que foi feito, foi com muito carinho, pensando em sua saúde, seu bem estar, sua segurança. Após mais uma internação ela não resistiu à pneumonia e nos deixou em 16 de abril, aos 89 anos.




As imagens dos últimos momentos ao seu lado, no leito, rezando o terço pra senhora ficar boa, de passar a mão por sua cabecinha branquinha, de segurar a sua mão cada vez que a senhora chamava, de cantar ‘Cura Senhor onde dói’ e outras canções que a senhora gostava para te acalmar e na esperança de te ver melhor, para voltar logo para casa. Mas prefiro ficar com as lembranças dos momentos felizes. Das oportunidades de te dar banho, de botar na cama para dormir, de cortar o seu cabelo escondido, do seu cheirinho, de suas risadas, de aprontar algumas brincadeiras para tirar fotos só pra te ver sorrir, dos desenhos que a senhora gostava de pintar, das leituras em voz alta, de passar para te ver, para pedir a ‘bença’ e saber como estava, de sentar no batente da porta da rua em sua companhia tomando café, dos teus conselhos, suas histórias, ensinamentos, sua alegria, sua fé! Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de ter uma avó tão maravilhosa. Ficam os bons exemplos e muita, muita saudade!







Texto e fotos: Ana Lúcia Souza



terça-feira, abril 07, 2020

Analítica faz 10 anos


Há dez anos nascia o Analítica, idealizado por uma jornalista recém formada, amante da leitura, fotografia e Rock'n'roll e com muitos sonhos. O blog torna-se um painel de impressões pessoais, com o intuito de partilhar algumas loucuras, experiências, recortes do cotidiano de personagens históricos, lugares interessantes visitados, manifestações culturais, leituras realizadas, e o que mais merecesse ser registrado.

Dez anos se passaram, alguns sonhos realizados, outros postergados ou simplesmente esquecidos e o Analítica resiste. E hoje, Dia do Jornalista, o blog celebra uma década de existência em meio ao período de pandemia do Coronavírus. Este post comemorativo deseja que sigamos com muita fé e esperança acreditando que tudo isso VAI PASSAR! Continuemos em casa, seguindo as recomendações da OMS e fazendo nossa parte de cidadãos conscientes!

Hoje também, data em que se comemora o Dia Mundial da Saúde, sensibilizamos com os profissionais da área da saúde que se encontram na linha de frente dessa situação. Enquanto isso, vamos aproveitar o tempo livre em que ficamos em casa para fazer nossas orações e  outras atividades, a exemplo da leitura que é um passa tempo prazeroso.



   
As fotos deste post contam com uma caneca com ilustrações alusivas aos 10 anos do Analítica produzida pela Cubo Biscuit.

#blogAnalítica10anos


Texto e fotos: Analítica

terça-feira, março 31, 2020

O Segredo de Frida Kahlo (Francisco Gerardo Haghenbeck)



Tenha a coragem de viver, pois qualquer um pode morrer (...) As pungentes últimas palavras que Frida escreveu em seu diário foram: Espero que a caminhada seja feliz e dessa vez espero não voltar”. Minha segunda leitura de março foi escolhida em homenagem ao mês dedicado às mulheres. Adquiri o livro ‘O Segredo de Frida Kahlo’, que além de um investimento, também foi minha companhia para os primeiros dias desse período de Quarentena.

Narrado em terceira pessoa, em cada um dos 24 capítulos de ‘O Segredo de Frida Kahlo’, o escritor mexicano Francisco Gerardo Haghenbeck traz uma mistura de ficção e realidade. Afinal, não se pode falar de Frida Kahlo sem falar de drama, sofrimento, paixões, curiosidades, fragilidades, e é claro, temperadas com muitas pinceladas de feminismo, sabores, cores, exageros, artes, política, militância, desafetos, bravura e tudo o que representa a trajetória histórica dessa grande artista mexicana.

A terceira de quatro filhas do casal Guilhermo e Matilde, Frida era a menos feminina delas. Na ausência de um filho, ela foi educada como um filho varão. Da poliomielite que lhe acometeu aos seis anos ficou a sequela de uma perna menor que a outra, motivo que a chamavam de ‘perna de pau’ e que a fez usar saias longas por toda a vida. Desde cedo já se interessava por arte. De família religiosa, acostumou-se a dizer que não tinha religião. Na Casa Azul, onde morou a maior parte da vida e onde recebia amigos e conhecidos, muitas foram as lembranças. 

Apaixonou-se pelo líder de sua classe, Alejandro Gómes Arias e em sua companhia, em um passeio de bonde, sofre um terrível acidente, no qual um tubo metálico lhe atravessa a pélvis, além de fraturar a coluna em três pedaços, quebrar a clavícula e também as costelas. Esse episódio marca seu primeiro encontro com a morte, a qual passa a chamar de ‘Madrinha’. Em vários momentos a narrativa destaca a figura imaginária de um cavaleiro que surpreende os pensamentos de Frida como um prenúncio de morte. Ela pede a sua madrinha que a deixe viver, e como condição para atender ao pedido, todos os anos ela passa a lhe oferecer um banquete em homenagem ao Dia dos Mortos, celebrado em 02 de novembro. “- Frida se o que você quer é me brindar com sua reverência, terá de fazer uma boa oferenda todos os anos (...) Mas aviso: você sempre vai desejar ter morrido hoje. Eu vou me encarregar de lembrá-la disso a cada dia da sua vida, página 51.



Nas várias interferências do discurso direto de Frida que permite a narrativa, o leitor por vezes divaga em seus pensamentos, aflições, desamores, e também suas descobertas, traições e relações extraconjugais também com amigas próximas. Ao final de cada capítulo são apresentadas receitas culinárias que ela registra em um caderno de capa preta que chamava de ‘Livro da erva santa’. Trata-se de uma coleção das receitas usadas no banquete que ela tanto se dedicava a erguer no altar da oferenda aos mortos.

Dotada de uma personalidade forte, engenhosa e que não ficava atrás quando queria dizer verdades, Frida passou a se interessar por questões políticas. “...e assim que se recuperou de seu acidente, dedicou-se totalmente à militância, abraçando o Comunismo para afogar nele seus desamores”. 

Frida casa-se com o também pintor Diego Rivera, seu grande amor que a trata de ‘minha menina Frida’ ou ‘Friducha’. O relacionamento é marcado por sofrimento, dor e traições de ambas as partes. É com Diego que Frida partilha também sua paixão pela arte. As sequelas do acidente no copo de Frida não permitem que o casal tenha filhos. Ela até engravida, mas não consegue levar a gravidez adiante, motivo pelo qual ela fica ainda mais depressiva. 

Frida acolhia a todos em sua casa e fazia questão de mostrar seus dotes culinários. A residência do casal no México foi abrigo para Leon Trótski  e sua esposa perseguidos pelo Fascismo de Stalin. Nessa oportunidade, a ocasião torna-se favorável também para o relacionamento secreto entre Frida e Trótski.



Já no fim da vida, doente e debilitada pelas dores que lhe acompanharam ao longo de tantos anos, seu semblante aparentava mais idade do que vivera. "Os olhos cor de café estavam distantes, perdidos em razão das muitas doses de drogas que se sujeitavam para aliviar as dores e da tequila em que afogava seus desamores (...) Aqueles olhos que outrora haviam sido labaredas quando Frida falava de arte, política e amor, eram agora brasas a ponto de extinguir-se, eram olhos distantes, tristes, mas sobretudo cansados".

As fotos que ilustram este post reúnem elementos pessoais adquiridos ou que me foram presenteados. Além do livro que sinaliza mais um investimento para o meu acervo pessoal, adquiri uma boneca de feltro produzida pelo Ateliê da Anna Cláudia, um funko produzido pelo Cubo Biscuitum quadro com ilustração da artista que comprei em uma viagem a Brasília e também uma blusa que ganhei de presente da amiga Mikaela da loja Toda Bella, expressam minha admiração pela história e obra dessa grande artista mexicana.

As pessoas continuam sua vida quando você morre. O relógio não se detém para nenhum mortal”.

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Texto e fotos: Blog Analítica

quarta-feira, março 11, 2020

Estação Atocha (Ben Lerner)


"...o sujeito dirigiu-se calmamente para a sala 56, parou na frente do Jardim das Delícias Terrenas, contemplou-o por um longo momento e então desabou por completo". Esta é uma breve análise da obra de ficção norte americana do autor Ben Lerner. 'Estação Atocha', escolhida como uma das Leituras Partilhadas do Blog Analítica do mês de março. 

Divididos em cinco capítulos, a obra tem por protagonista Adam Gordom, um rapaz norte-americano que ganha uma bolsa de estudos em Madri, uma oportunidade para concluir seu projeto de pesquisa que se refere a composição de um poema acerca da Guerra Civil Espanhola.

A história é essencialmente narrada em primeira pessoa pela perspectiva de Adam, um escritor de poesias, conhecido e tratado carinhosamente por 'poeta'. Viciado em café, usuário de haxixe ele sempre tem o hábito de se automedicar.

Gordom é um sujeito confuso, que demostra insegurança, principalmente na relação com as mulheres que ele conhece no decorrer da trama: Isabel e Teresa. O enredo tem por cenário a Estação Atocha, próximo de onde fica o apartamento que Gordom mora. Desse local ele tem uma visão privilegiada da estação e imediações. 

Um dos passa tempos de Adam é visitar o Museu do Prado e galerias de arte. Citações acerca de livros e de artes plásticas estão sempre presentes ao longo da narrativa, fato que por vezes é pertinente recorrer a uma pesquisa de nomes de artistas e de obras para agregar sentido à leitura. A exemplo de escritores e artistas favoritos mencionados por Adam, como a obra de 'O jardim das delícias terrenas' citada no primeiro capítulo, no trecho em que Gordom observa um certo frequentador do museu contemplar, e que se trata da mesma pintura que aparece na ilustração da capa do livro Estação Atocha.

Em muitos momentos é presente a contradição de Adam, principalmente no que diz respeito a sensibilidade para entender a arte, para compor seus poemas e de se fazer entendido pelo que escreve. Ele pouco domina o espanhol, mas mantem acesa a esperança de um dia se tornar um autêntico escritor romancista. 

Na tentativa de viver uma profunda experiência artística, em um dado momento ele é até questionado acerca do que realmente está buscando e o que está fazendo para isso se realizar. "Adam, você é um poeta maravilhoso, um verdadeiro poeta (...) Quando vai parar de fingir que está só fingindo ser poeta?(...) A sensação mais próxima de uma profunda experiência artística que eu tivera talvez tenha sido a vivência dessa desconexão, uma profunda experiência da ausência de profundidade"

Por vezes ele demonstra alheio aos acontecimentos ao seu redor, a exemplo do recorte histórico mencionado no livro, referente ao episódio de 11 de março de 2004, marcado pelos ataques terroristas na Estação Atocha em Madri, ocorrido três dias antes das eleições gerais espanholas. Nesse momento da narrativa pode-se perceber o quanto Adam, desconhece a história local e é resistente para se envolver com fatos do cotidiano assumindo uma postura simplesmente de um observador.

Entre várias dúvidas que permeiam o personagem principal, uma delas diz respeito a incerteza de seu futuro, após a conclusão de seu projeto de pesquisa: se permanece na capital  espanhola ou se retorna aos Estados Unidos. Mas ao final da narrativa, a primeira alternativa talvez tenha sido a escolha do jovem poeta Adam Gordom que comemorou enfim ter alcançado o que se configurava na busca por viver uma profunda e experiência artística.

"Arturo tinha mandado imprimir mil exemplares (...) e convidado todo mundo para o lançamento e a recepção. No final, comecei a caminhar em direção à galeria e fiquei contente ao ver que estava lotada. (...) Por que nasci entre espelhos? Teresa leria os originais e eu as traduções. (...) Depois pensei que adoraria viver para sempre num quarto iluminado por uma claraboia, cercado dos meus amigos".

'Estação Atocha' é um livro interessante, o enredo e a escrita de Ben Lerner se apresentam de forma simples. A leitura fluiu tranquilamente. Muitas vezes me coloquei no papel do protagonista, e por vezes pensei ter compreendido as fluentes dúvidas e contradições pertencentes ao cotidiano desse escritor. Li e recomendo!

Título: Estação Atocha / Autor: Ben Lerner / Páginas: 220 / Gênero: Ficção Norte Americana

Texto e foto: Analítica





  

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Felicidade Clandestina (Clarice Lispector)


"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A  felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar...Havia orgulho e pudor em mim", pág. 12.

Este ano decidi que em vista da comemoração do Centenário de Clarice Lispector priorizaria algumas de suas obras em minha lista de leitura. Até o momento adquiri duas obras: 'Felicidade Clandestina' e 'Perto do coração selvagem', sendo esta, 'Felicidade Clandestina', a que primeiro escolhi da autora para ler este ano. Essa obra é o meu segundo contato com a autora, o primeiro foi por meio de 'A hora da estrela', que em outra oportunidade irei partilhar a leitura aqui. 

Felicidade Clandestina é um livro em que a escritora reúne várias temáticas divididas em 25 contos, que tem por títulos, a exemplo de Uma amizade sincera; Restos do Carnaval; Come, meu filho; A mensagem; Primeiro beijo e Felicidade clandestina que dá nome ao livro, sendo este último um dos contos que particularmente mais gostei. "Às vezes sentava-me na rede balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante", pág. 12.

Gosto da escrita de Clarice, acredito que ela traz narrativas que buscam desvendar a essência humana. Considero que sua narrativa se configura hora simples e às vezes complexa, porém sempre bem estruturada com uma boa pitada de naturalidade ao trazer temas inseridos num contexto comum, que abordam a infância, juventude, a vida adulta e relações familiares, talvez para dizer que a felicidade pode estar nas coisas mais simples. "Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente", pág. 43 e 44. 




Ao relatar fatos do cotidiano, utilizando de assuntos corriqueiros, ela apresenta um recorte de narrativas, até mesmo histórias que aconteceram no próprio cotidiano da autora, em que o próprio leitor pode se identificar em algum momento, seja por meio de algum personagem, como se pode constatar neste exemplo em que dialoga com os filhos: "Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse francamente, confusa, sem saber se chegaria infelizmente a hora certa de perder a esperança: 
- É que não se mata aranha, me disseram que trás sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade", pág. 92.

Seu estilo não se prende muito a caracterização precisa dos lugares, dos personagens, mas a narrativa muitas vezes surpreende, dada as revelações dos personagens, suas angústias e percepções. "As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito", pág. 99.

É comum a presença de indagações e reflexões marcadas por conflito de ideias que podem ser observados na fala do narrador. "Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele", pág 44. 

Além de trazer também questionamentos ao tempo em que se procura estabelecer comparações. "Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que 'Deus' é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário quero chamar de Deus", pág. 45.

O que achei mais interessante e que marca uma das características da escrita de Clarice, é o fato da autora sempre reservar algo surpreendente para os personagens, revelando-os de forma totalmente diferente do que se poderia imaginar anteriormente. "...E de repente, com o coração batendo de desilusões, não suportei um instante mais - sem ter pegado o caderno corri para o parque, a mão na boca como se me tivesse quebrado os dentes. (...) Na minha impureza eu havia depositado a esperança de redenção nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes, que eu fizera à minha imagem, mas a uma imagem de mim enfim purificada pela penitência do crescimento, enfim liberta da alma suja de menina", pág. 113.


Gostei muito dessa leitura, super recomendo e já estou ansiosa para o próximo contato com a obra de Clarice Lispector!

Palavras-chaves: Felicidade - contos - simples - busca - Clarice - cotidiano

Título: Felicidade Clandestina
Autora: Clarice Lispector
Gênero: Conto Brasileiro
Editora: Rocco
Páginas: 160

Texto e foto: Analítica

Storytelling (Carmine Gallo)

  "O storytelling não é algo que nós fazemos. O storytelling é o que somos". Concluída a leitura de 'Storytelling', de Car...